Desastre em Congonhas: Perguntas e respostas

Segundo especialistas ouvidos pela BBC, caixa-preta pode revelar causas do acidente.

Daniel Gallas, BBC

20 de julho de 2007 | 15h02

Especialistas ouvidos pela BBC Brasil avaliam que a maior parte das dúvidas sobre as causas do acidente do vôo 3054 da TAM no aeroporto de Congonhas poderá ser respondida logo após a análise das caixas-pretas.As caixas-pretas estão sendo decifradas nos Estados Unidos e o seu conteúdo pode ser revelado já na próxima semana, segundo o governo brasileiro.Enquanto isso, há poucos fatos e muitas dúvidas sobre o que aconteceu no que já é considerado o maior acidente aéreo da história do Brasil, que deixou pelo menos 190 mortos.Os especialistas Ivan Sant''Anna e Carlos Ari Germano - autores de livros especializados em aviação - falaram à BBC Brasil sobre o acidente e traçaram prováveis cenários."O que derrubou o avião é uma série de fatores: o avião superlotado, chuva, vento, água na pista, pista nova espelhada e talvez alguma decisão errada (dos pilotos) - o que até é injusto falar assim, já que é uma situação tão complicada", disse Sant''Anna.Confira abaixo algumas questões que ainda não foram respondidas sobre o acidente e os comentários dos especialistas sobre as hipóteses levantadas para estas dúvidas.O vídeo divulgado pela Infraero na quarta-feira, com imagens do vôo 3054 em alta velocidade na pista de Congonhas, não deixa isso claro.Segundo Germano, o avião poderia ter chegado ao chão já em alta velocidade, devido a alguma falha operacional antes de a aeronave encostar no chão (como, por exemplo, um procedimento errado por parte dos pilotos) ou devido a algum tipo de pane no avião.Nesse caso, o acidente teria começado antes de o avião chegar ao chão.Segundo Carlos Ari Germano, duas são as possibilidades:Ivan Sant''Anna indica uma terceira hipótese: o piloto poderia ter acelerado a aeronave logo ao tocar no chão para tentar arremeter, sem mesmo tentar frear a aeronave ou depois de fracassar na tentativa de parar.A Infraero nega que houvesse excesso de água na pista no momento do acidente, segundo medições feitas alguns minutos antes da aterrissagem. Ainda assim, a hidroplanagem não pode ser descartada, segundo os especialistas, pois ainda faltam evidências claras sobre a condição da pista no momento.Germano afirma que a aguaplanagem apresenta uma situação de grande risco para os aviões, principalmente em pistas curtas, como em Congonhas: "Quando o avião hidroplana, a roda passa por cima da lâmina d''água e esquia sobre a água, como se fosse gelo, e não desacelera. Em uma situação de hidroplanagem, o reversor (utilizado para frear o avião com a turbina) não faz o avião parar."Os especialistas afirmam que a falha poderia ter acontecido em dois sistemas de freios: no freio da roda do trem de pouso ou no reversor. Segundo informação confirmada pela TAM, o avião acidentado estaria com o reversor da turbina direita desativado devido a um problema registrado dias antes. A empresa nega, no entanto, que esse problema apresentasse risco ao avião.Segundo Germano, é possível frear a aeronave sem o reversor, já que o principal sistema para travar a aeronave no solo é o freio na roda do trem de pouso, mas ainda não está claro se esse mecanismo estava funcionando normalmente.Para Ivan Sant''Anna, essa hipótese é bastante provável: "Se ele tivesse tentado parar, o avião teria caído na avenida, mas ele atravessou (a avenida Washington Luis) voando, com motores a pleno."No entanto, outros especialistas, como Germano, avaliam que um dos reversores estava ligado nas imagens reveladas pela Infraero. Nesse caso, a decisão de arremeter só teria sido tomada tarde demais."Assistindo ao vídeo, o que eu reparei é que ele estava com ''full'' reverso. Você nota que embaixo das rodas tem água subindo. Aquilo não se formaria se ele estivesse com potência para decolagem."A hipótese indicada pelos especialistas é de que a decisão de arremeter pode ter sido tomada tarde demais pelos pilotos.Mas há muitos fatores que não são conhecidos ainda.Por exemplo, o Airbus opera com um sistema "fly-by-wire" (FBW), que impede a aeronave de obedecer a alguns comandos do piloto, caso a ordem seja considerada arriscada pelo computador da aeronave.No entanto, em situações de grande risco, as soluções encontradas pelos pilotos nem sempre seguem a lógica do FBW."O Airbus é um avião muito sofisticado e tem ''vontade própria''. Ele não toma nenhuma atitude considerada insensata, mas o que aconteceu ali foi uma situação confusa", diz Sant''Anna.Há bastante polêmica sobre a pista principal de Congonhas, que passou por uma reforma recente. A pista foi entregue sem os groovings ("ranhuras"), que facilitam o escoamento da água da pista.No entanto, segundo os especialistas, faltam informações para se saber com certeza se havia poças d''água no momento do acidente.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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