Desaprovação social, a nova inimiga do fumo

O cigarro provoca câncer, enfisema pulmonar, disfunções cardíacas, envelhecimento precoce, problemas para o feto. Mas, para um grupo de fumantes, esses argumentos não têm tanto impacto quanto o mais recente efeito colateral do tabaco: a desaprovação social. É ela que tem levado um número grande de dependentes a tentar deixar o vício. Especialistas acompanham a mudança com estusiasmo. "Um dos méritos desse fenômeno é a restrição do fumo passivo, além, claro, de incentivar o dependente a abandonar o vício", diz a chefe de Divisão de Tabagismo do Instituto do Câncer (Inca), Tânia Cavalcanti. Em uma pesquisa feita no Rio, o Inca perguntou a não-fumantes qual seria a reação se vissem alguém fumando em local fechado. Dos entrevistados, 34,8% disseram que não fariam nada. O restante tomaria uma atitude ou ao menos mostraria sinais de desagrado. "Estou cansada de ouvir: que mulher elegante, pena que fuma", afirma a relações públicas Ana Maria Begola. "É como dizer: ´que rosto lindo, pena que é gorda´. Virou algo depreciativo", completa. Fumante há 40 anos, Ana tem consciência de que o cigarro é um veneno a contagotas. Ainda mais com seu perfil: colesterol alto e casos de morte por enfarte na família. Mas o fator decisivo para parar de fumar foi mesmo a crescente patrulha antitabaco. "É no restaurante, é em casa, com os filhos. Até no carro, sozinha, percebo que as pessoas me olham com desprezo." Não era assim quando começou a fumar. "Era chique. Ninguém reclamava que eu estava cheirando cigarro. Afinal, todos tinham esse mesmo cheiro." Na sexta-feira, ela deve acender seu último cigarro. É o prazo determinado pelo tratamento que está fazendo, que envolve mudanças de hábito e o uso de medicamentos. "Motivação, desta vez, não falta." Trabalho - Nos ambientes de trabalho, o controle é igualmente grande. Funcionários dos escritórios de São Paulo da empresa Motorola que quiserem fumar, por exemplo, têm de ir à área comum do condomínio, no último andar do prédio. "A dificuldade para ir até o lugar onde o fumo é permitido certamente faz com que o funcionário pense duas vezes se quer mesmo acender um cigarro", afirma o gerente de recursos humanos da empresa, Eduardo Pellegrina, que também mudou seus hábitos graças à pressão social e ao ambiente do trabalho. Depois de consumir um maço de cigarros por dia durante 25 anos, Pellegrina decidiu deixar de fumar no trabalho em 1995, quando organizou um programa de melhoria de qualidade de vida. "Tinha de dar o exemplo. Agora fumo esporadicamente." Hoje Pellegrina admite que o fato de fumar pode ser considerado como algo negativo, no momento da seleção de um empregado. "Não é uma regra absoluta, mas pode ocorrer", diz.

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