Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE

Desapropriação gera clima de guerra em São Gabriel

Há um clima de guerra contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) em São Gabriel, município da região Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul onde o governo federal tenta desapropriar 13,2 mil hectares de cinco fazendas do agropecuarista Alfredo Southall. Enquanto os fazendeiros preparam estratégias para cercar a marcha de 800 acampados que deve chegar à cidade no final do mês, o comércio coloca faixas de pano preto em suas vitrinas e anônimos fazem circular panfletos que incitam a população a exterminar os sem-terra. A crueldade das recomendações revoltou até o governador do Estado. Indignado com o panfleto distribuído nesta semana, que pede aos gabrielenses que entreguem comida contaminada com veneno de rato aos sem-terra ou que pulverizem os acampamentos com gasolina para depois queimá-los, Germano Rigotto (PMDB) exigiu que a Secretaria de Justiça e Segurança identifique e puna o responsável pelo texto. O delegado do Ministério do Desenvolvimento Agrário no Estado, Jeferson Miola, solicitou que a Polícia Federal e a Procuradoria Geral da República no Estado também acompanhem o caso.Ao perceberem a gravidade da situação, o prefeito Rossano Dotto Gonçalves (PDT) e o presidente do Sindicato Rural, José Francisco Costa, também pediram, em nota conjunta, nesta quinta-feira, a localização do autor dos panfletos. Acreditam que, com isso, poderão se livrar de qualquer suspeita e, talvez mais, encontrar alguma surpresa. Costa disse a uma rádio local que desconfia de armação dos sem-terra ou de seus defensores.Antes da tensão chegar ao seu climax, Gonçalves já havia tomado diversas providências para mostrar que os sem-terra não serão bem recebidos na cidade. No dia 20 de maio, logo que soube da desapropriação e da intenção do Incra de implantar um assentamento modelo nas fazendas, anunciou que o município não poderia absorver 530 famílias de uma vez só. Depois, deixou de comparecer a um encontro com o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto.Gonçalves também é acusado de ter mandado cavar valas na via de acesso às terras de Southall. A vereadora Sandra Xarão (PT) denuncia a escavação como uma armadilha para motoristas que não conhecem a região, entre os quais poderiam estar os que dirigem os ônibus contratados pelo MST. "Os fazendeiros sabem do buraco e podem desviar dele", afirma. O prefeito alega que a vala foi aberta apenas para consertar a estrada.Os ruralistas da região esperavam que o clima tenso esfriasse depois do dia 1º de junho, quando a ministra Ellen Gracie Northfleet, do Supremo Tribunal Federal, concedeu a liminar pedida por Southall e suspendeu o decreto do governo federal até o julgamento do mérito de uma ação que contesta as vistorias feitas pelo Incra em dezembro de 2001 e que deram origem ao processo de desapropriação. Mas os sem-terra resolveram pressionar a Justiça com uma manifestação pública. No dia 10, o grupo de 800 militantes partiu de Pantano Grande, na Região Carbonífera, para percorrer, caminhando, os 206 quilômetros que levam a São Gabriel.Apesar da situação tensa, os sem-terra asseguram que não desistem de ir a São Gabriel, embora ressalvem a intenção de não invadir terras ao final da marcha. "Vamos mostrar à sociedade a necessidade da reforma agrária", explica um dos coordenadores do movimento no Estado, Miguel Stédile. Prevenidos, os fazendeiros monitoram cada passo da caravana e prometem cercá-los, sem impedir deslocamento por vias públicas, quando chegarem a São Gabriel. "Se estão tentando amedrontar o movimento e impedir que a reforma agrária aconteça, não vão conseguir", rebate o deputado estadual Dionilso Marcon (PT), vinculado ao MST.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.