Alex Silva / Estadão
Reeleito prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB) participa de cerimônica de posse na Câmara Municipal Alex Silva / Estadão

Desafio de Covas é criar uma marca

Problemas não faltam: enfrentar a pandemia continua sendo o principal, mas dar dignidade à população de rua com uma política pública de inclusão também é indispensável

Marco Antonio Teixeira*, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2021 | 05h00

Desde que assumiu o mandato, em abril de 2018, Bruno Covas tinha dois desafios imediatos. O primeiro era não ser visto simplesmente como continuidade do governo João Doria (PSDB), eleito prefeito em 2016 e governador em 2018. Tal preocupação ele já sinalizava quando afirmou à imprensa que seria um prefeito “mais social-democrata” do que Doria, que teria “uma posição mais liberal”. Uma das rupturas com seu antecessor ocorreu quando Covas descontinuou “parcerias” com empresas que por meio de doações criavam a ilusão de suprirem lacunas de políticas públicas que na realidade eram decorrentes de falhas do próprio governo.

Bruno Covas é mais reconhecido por sua postura no enfrentamento à covid-19 do que por qualquer tipo de política pública conduzida por seu governo. Foi com essa imagem de enfrentamento à pandemia, associada a coragem de enfrentar seus problemas de saúde, que foi reeleito e se transformou num dos principais líderes políticos do PSDB, afastando a fantasma de Doria enquanto seu padrinho político.

O segundo desafio: criar uma marca do governo. Problemas não faltam: enfrentar a pandemia continua sendo o principal, mas dar dignidade à população de rua com uma política pública de inclusão também é indispensável, como também é importante preparar a cidade para o período pós-pandemia que vai exigir esforços em todas as áreas de políticas públicas: da saúde à educação, do saneamento ao desenvolvimento econômico, mas sobretudo em capacidade de gestão.

*É PROFESSOR E COORDENADOR DO CURSO DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DA FGV-EAESP

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Em segundo mandato, Covas vai enfrentar covid e busca por marca, dizem analistas

Se a base para se alcançar uma marca está no programa de governo, prefeito deve caminhar por ao menos três áreas prioritárias: educação, mobilidade e meio ambiente.

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2021 | 05h00

Quando se analisa o mandato recém-concluído do prefeito Bruno Covas (PSDB) ao menos uma característica em comum é apontada por quem acompanha política pública em São Paulo: a falta de uma marca de gestão. Especialistas da área ouvidos pelo Estadão concordam que o tucano buscará até 2024 suprir essa demanda, que não necessariamente deverá estar associada aos desafios no enfrentamento da covid-19.

Se a base para se alcançar esse objetivo está no programa de governo apresentado durante a campanha eleitoral, Covas vai caminhar por ao menos três áreas prioritárias: educação, mobilidade e meio ambiente.

A entrega do esperado Parque Augusta, por exemplo, pode virar vitrine, especialmente se o governo se empenhar em viabilizar outro parque há tempos esperado pela população: o Parque Paraisópolis, bem longe do centro e nos arredores da segunda maior favela da capital.

Vale lembrar que o combate à desigualdade social em São Paulo foi destacado como meta pelo prefeito ao longo da eleição, mas aparentemente deixado de lado nos últimos dias do ano, quando Covas sancionou lei que aumenta seu próprio salário - e da elite do funcionalismo público - em 46% a partir de 2022.

Já o Parque Minhocão, que o tucano chegou a tratar como uma potencial marca de sua primeira gestão, deve continuar a enfrentar resistência. Se não da Justiça, que liberou o projeto, de parte da população, que considera a via elevada uma rota de trânsito e não de lazer.

Promessas de lado, analistas ouvidos pela reportagem ressaltam que o segundo mandato será de continuidade, como exaustivamente mostrado na campanha. O desafio dentro dessa previsão, segundo o cientista político Rodrigo Prando, será fazer valer a característica pessoal que o prefeito quer propagar.

"No PSDB, Covas se diz mais social-democrata que (João) Doria, mas precisa imprimir essa marca em sua gestão: pensar no desenvolvimento econômico do Município aliado a uma visão social comprometida com os mais vulneráveis. Veremos se conseguirá", afirma o professor do Mackenzie.

Periferia

De acordo com os compromissos assumidos pelo tucano, a cidade voltará a receber obras de mobilidade importantes, como corredores de ônibus – nos últimos quatro anos, foram entregues menos de 5 quilômetros de vias exclusivas – ganhará mais 12 CEUs e ainda 15 UPAs. A lista de obras contém ainda a criação de um modelo novo de transporte no extremo sul, por meio de barco.

A expectativa é que a periferia ganhe mais atenção do tucano, que conta agora com a experiência de Marta Suplicy em sua equipe. Anunciada como secretária municipal de Relações Internacionais, Marta fez do trabalho nas áreas mais pobres sua marca de gestão.

Além de incentivar a construção dos CEUs prometidos – uma das grandes marcas de seu governo – , Marta ainda servirá como uma espécie de "cartão de visitas" para Covas entre os mais pobres. Os mais velhos, especialmente, sofreram um duro golpe no fim do ano com a decisão de Covas acabar com a gratuidade no transporte público de pessoas com 60 a 65 anos.

"Faz poucos anos, goste ou não, a cidade não tem marca. Algo que te faça sair de casa para ver. Marta instituiu o Bilhete Único e criou o CEU, símbolo do poder público onde falta Estado. A dupla Serra-Kassab instituiu a Cidade Limpa. Haddad pintou faixas para bicicletas, fechou avenidas e delimitou mais espaço aos ônibus. O que fez a dupla Doria-Bruno? São Paulo precisa de uma marca. Carece do desafio de ter orgulho, ou de contestar. Falta o grande projeto", diz o cientista político Humberto Dantas, coordenador do blog Legis-Ativo.

Coordenadora da Rede Nossa São Paulo, Carolina Guimarães aponta a revisão do Plano Diretor, prevista para este ano, e a reestruturação da rede de ônibus (com o início da vigência do novo contrato) como chances para Covas fazer valer sua disposição em reduzir desigualdades.

"Ambos temas são imperativos para buscar equalizar a dicotomia marcante da cidade, centro versus periferia, para garantir vidas mais dignas além do centro expandido", explica.

E continua: "Covas enfrentará uma cidade polarizada, historicamente fragmentada e economicamente frágil. A fé, o foco, e a força (lema de sua campanha) devem encontrar materialidade em processos de diálogo e transparentes para enfrentar as grandes disparidades territoriais e colocar interesses públicos acima de privados. Utilizar-se de dados para pautar políticas públicas e aproveitar do conhecimento de grupos de base, com legitimidade e orçamento descentralizado, é o caminho para uma cidade que concretiza seu potencial."

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