Desafio da AL é a integração, diz Duhalde

O presidente da Argentina, Eduardo Duhalde, um dos 21 governantes que participam, nesta sexta-feira, da 12ª Cúpula Ibero-americana, na República Dominicana, afirma que o maior desafio dos países latino-americanos é a integração e o aproveitamento das potencialidades coletivas. "A estratégia da integração constitui a alternativa de uma inserção no mundo através da solidariedade regional", diz. Veja a íntegra de seu pronunciamento:"Não saberia dizer quando se iniciou o século XXI: alguns historiadores afirmariam com segurança que este novo século - e milênio - começou em 1989, com a queda do Muro de Berlim, da mesma forma que outros defendem que a Revolução Francesa abriu o Século XIX. Com a queda do Muro de Berlim se evaporaram os medos das confrontações Leste-Oeste e se concluiu a Guerra Fria, que caracterizou o ciclo histórico do pós-guerra mundial. Um mundo multipolar, próspero e economicamente ativo despontava. Um mundo de paz, de livre mercado e democrático - era este o horizonte que vislumbrava o capitalismo triunfante.Talvez outros historiadores prefiram indicar o 11 de setembro de 2001 como o fato mais significativo para se considerar como o início de um ciclo, de um novo século caracterizado por um mundo quase unipolar, em um contexto de desaceleração econômica, de crescimento do protecionismo e aumento dos subsídios. Um período histórico que nos apresenta outros tipos de desafios: flagelos globais, que afetam todas as nações e configuram uma nova agenda internacional.O terrorismo, o narcotráfico, a lavagem de dinheiro, a corrupção, os fluxos financeiros especulativos, a deterioração do meio ambiente, a falta de recursos para o desenvolvimento, o peso sufocante da dívida externa dos países emergentes, a fragilidade das democracias, a crise de representatividade dos partidos políticos, o ressurgimento do nacionalismo xenófobo são apenas alguns exemplos desta nova agenda, que vigorosamente se impõe diante de nossos olhos, tanto para os países europeus como para os países latino-americanos.Nossos dois continentes enfrentam o aprofundamento da globalização e nos dois continentes se levantam as vozes a favor e contra este processo, que avança sem pedir licença, impulsionado pela racionalidade ou irracionalidade do mercado.A globalização apresenta aspectos benéficos, tais como a velocidade das comunicações, a universalização da informação, a democratização do conhecimento, a agilidade do transmissão dos acontecimentos e grandes questionamentos sobre qual o tipo de mundo estamos construindo.Este novo século será conhecido como o século da globalização? Esta globalização está prejudicando as nações latino-americanas através das reduções dos fluxos de investimentos diretos e sinais nada alentadores do fechamento dos mercados?Novas condicionalidades exercidas pelos organismos financeiros internacionais reduzem a margem de manobra dos países latino-americanos. No entanto, nossa região está dotada de potencialidades e condições para alcançar um elevado nível de desenvolvimento, na medida em que saibamos articular o crescimento econômico com o desenvolvimento social, potencializar nosso mercado regional, incrementar nossa participação no comércio internacional, atacar os inaceitáveis índices de pobreza e de extrema desigualdade na distribuição de renda, dotar nossos Estados com a capacidade para regular a gestão das empresas privatizadas de serviços públicos, controlar os fluxos especulativos do capital estrangeiro, equilibrar as contas públicas e negociar adequadamente sua participação no cenário mundial em cada uma das negociações internacionais iminentes.Nossa região, a ibero-americana, conta com todos os recursos necessários para enfrentar com êxito os desafios do novo século e brindar nossos povos com um adequado nível de vida e justiça social; nossa região é hoje um gigantesco espaço geográfico onde reina a democracia, o respeito aos direitos humanos e a solidariedade regional.Mas o novo século nos encontra economicamente vulneráveis. Hoje existem poucas dúvidas de que as políticas de abertura comercial e financeira e o processo de privatização de empresas públicas não foi tão satisfatório quanto se pensava e tornou os países latino-americanos instáveis diante dos fluxos de capital internacional. A concentração da atividade econômica provocou um aumento do desemprego, da marginalização social e o agravamento de um sistema injusto da distribuição da renda em todo o mundo.A experiência da União Européia deixa claro que os processos de integração regional podem servir de moderadores dos efeitos nocivos da globalização e de administradores e reguladores das potencialidades de crescimento no contexto da mundialização.O êxito do lançamento da moeda única aumenta a capacidade de neutralizar as ações do capitalismo financeiro especulativo. A integração européia dotou o Velho Mundo de previsibilidade, consolidou a democracia e a paz, moderou os extremismos e alentou a igualdade distributiva entre os Estados participantes, em benefício da justiça social.A estratégia da integração constitui a alternativa de uma inserção no mundo através da solidariedade regional. Este é o maior desafio dos países latino-americanos: integrar-nos e aproveitar nossas potencialidades coletivas.A América Latina, cadinho de raças, é o paradigma de tolerância, de generosa atitude receptora de imigrantes e de tradição de paz entre nossas nações.Europeus e latino-americanos construímos um passado comum, nosso continente recebeu ao longo de décadas ondas migratórias européias consolidando uma cultura compartilhada.Compartilhamos os mesmos valores, a mesma idiossincrasia, as mesmas línguas, as mesmas convicções religiosas, a mesma percepção do homem como sujeito histórico dotado de responsabilidades e obrigações para com seu próximo e seu ambiente, a mesma concepção de democracia representativa.Também compartilhamos das mesmas aspirações: brindar nossos povos com a mais alta qualidade de vida possível, dotar nossos cidadãos de leis que favoreçam a igualdade e a justiça social e lhes dê condições para acessar a educação, saúde e amparo social. Compartilhamos a ânsia por um mundo melhor.É com estes valores que latino-americanos e europeus desejamos ingressar na globalização. Uma globalização humanista, eqüitativa para todos os povos e economicamente justa.Latino-americanos e europeus compartilhamos uma história entrelaçada por vínculos humanos e familiares. E com certeza compartilharemos o futuro.Esta 12ª Cúpula Ibero-Americana nos oferece uma nova oportunidade para desenhar esse futuro. Dotados de imaginação, de criatividade e de audácia, tenho a certeza de que poderemos impor à globalização nossos valores e construir com solidariedade e responsabilidade nosso destino comum.?

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