Desabrigados por chuvas há 9 meses temem nova transferência

Ex-moradores do Morro do Bumba (Niterói), que ruiu em abril de 2010, relatam rotina tensa em abrigo.

Júlia Dias Carneiro, BBC

11 de janeiro de 2011 | 10h15

Abrigo tem cerca de 180 desabrigados do Morro do Bumba

No abrigo onde estão famílias do Morro do Bumba e outras vítimas das chuvas de abril em Niterói, no Rio de Janeiro, a ansiedade só aumenta. Antes, era pelo desejo de sair de lá o quanto antes. Agora, é pelo medo de ser transferido para outro abrigo, como a prefeitura de Niterói pretende fazer na semana que vem.

"A minha expectativa é que a gente já saia daqui para dentro de nossa casa, e não para outro abrigo que sabemos que é perigoso. Não dá para ir para lá. Ainda não sei onde vai a casa, mas onde quer que seja, que seja minha, maravilha", diz Leandra Maria de Oliveira.

Leandra tem 38 anos, é mãe de cinco filhos e morava no Morro do Bumba, a favela formada sobre um antigo lixão que ruiu após as fortes chuvas de abril do ano passado. A tragédia causou a morte de 47 pessoas, entre elas tios e primos de seus filhos.

Depois de passar um mês morando com a família numa creche, Leandra vive desde então no 4º Grupo de Companhias de Administração Militar (4º GCAM), no bairro de Barreto, em Niterói, com cerca de 180 pessoas.

Cada uma tem uma história diferente, mas todas elas começam pelas tragédias das chuvas de abril e envolvem a perda da casa - quando não de entes queridos nos deslizamentos no Bumba ou em outros morros do município, como Tenente Jardim e Caramujo.

Na terça-feira semana passada, os moradores do abrigo se recusaram a sair quando um caminhão da Empresa Municipal de Moradia, Urbanização e Saneamento (Emusa) de Niterói chegou com uma escolta policial para fazer a remoção.

A prefeitura quer transferi-los para o 3º Batalhão de Infantaria, em Venda da Cruz, onde vivem outros 260 desabrigados. No mesmo dia, o Ministério Público concedeu uma liminar negando a "retirada das pessoas à força de seus alojamentos".

Mas uma nova decisão obtida pela prefeitura obteve a suspensão parcial da liminar. De acordo com a assessoria de imprensa da prefeitura de Niterói, a transferência deverá ocorrer na próxima semana, com o apoio de assistentes sociais e guardas municipais.

Rumores

Rosa Maria Marciano vive no abrigo com seis pessoas da família

Enquanto acompanham as decisões sobre seu destino por notinhas de jornal, os moradores do 4º GCAM se apegam às paredes que os abrigaram até aqui. Pelos corredores, circulam rumores de que o outro abrigo é sujo, perigoso, tem quartos separados por compensado de madeira e presença de tráfico de drogas.

"Aqui bem ou mal temos janelas, paredes e dois andares. Lá as famílias vivem em cercadinhos de madeira imundos e tem muito bandido", diz Luiz Cláudio dos Santos, 37 anos.

Rosa Maria Marciano, de 47 anos, perdeu sua casa em Tenente Jardim e mora num quarto do 4º GCAM com a família de seis pessoas. Queixa-se da comida que a prefeitura manda para o abrigo todos os dias e do chuveiro comunitário - ela luta contra um câncer na mama e se sente constrangida por ter que expor as marcas de uma cirurgia ao olhar curioso das crianças.

Mas Rosa tem um cantinho para o fogão onde incrementa a comida que chega, e uma estante com algumas de suas posses: televisão, cafeteira e ferro de passar roupa.

"Em vez de arranjar uma solução para a nossa vida, a prefeitura quer levar a gente para um lugar pior. Lá os barraquinhos são de compensado e qualquer um pula de uma sala para a outra. Então você não tem privacidade e nem segurança de objeto nenhum", diz.

Para Rosa, a vida levada no abrigo é "triste". "Chegamos aqui sem cama, dormindo no chão, cobertor fininho, colchonete magrinho, tudo sofrido", afirma. "Não gosto nem de olhar para trás. Minha vida está despedaçada. Uma coisinha guardada na casa de um, outra guardada na casa de outro, e o pouco que consegui trazer para cá."

Com a tensão em relação ao futuro e sem opções de lazer, a convivência diária no abrigo é "entre tapas e beijos", diz Rosa.

"A gente não tem esperança. Não chega ninguém para dizer de fato o que vai acontecer, quando vamos sair daqui, até quando vamos receber aluguel social. A gente vive sem saber se amanhã vai vir comida. É um desgaste horrível."

Briga

Na última sexta-feira, quando a reportagem da BBC Brasil chegou lá, só se falava de uma briga ocorrida no dia anterior. Por causa de um suco de frutas negado a uma criança que queria repetir, um morador e uma moradora se desentenderam e a filha desta, de 10 anos, acabou levando uma vassourada. A história acabou na delegacia.

"As pessoas vão para esse Big Brother Brasil e ficam numa casa com piscina para ganhar R$ 1 milhão. Queria ver era encararem isso aqui. Nós é que merecíamos um prêmio desses", diz Márcia Deuselina Nunes, de 47 anos, que morava em Tenente Jardim e perdeu o marido quando sua casa desabou.

De acordo com a prefeitura de Niterói, 3.200 famílias estão recebendo aluguel social de R$ 400, e os abrigos são destinados às que não conseguiram alugar um imóvel com o valor.

Leandra diz ter desistido após receber mais de dez "nãos" no ano passado. "Não tem como alugar uma casa por R$ 400. E quando eu falava que era do Bumba e tinha cinco filhos, sempre inventavam uma desculpa", diz.

'Questão de logística'

Em nota, a prefeitura informa que a transferência dos desabrigados para o 3º BI "não foi uma decisão arbitrária" e foi motivada por "questão de logística", visando a atendê-los "melhor" num único espaço, "com mais segurança e acesso aos serviços de saúde e educação".

De acordo com a prefeitura, há espaço para os 440 desabrigados viverem juntos no 3º BI e estão sendo erguidos apartamentos para abrigá-los no futuro.

Em setembro, o governo do Estado iniciou a construção de 180 unidades habitacionais em Viçoso Jardim, próximo ao Morro do Bumba. A conclusão está prevista para este ano. Também serão erguidas unidades habitacionais nos bairros do Sapê e Jacaré, mas as obras ainda não começaram e precisarão de pelo menos 18 meses para ficar prontas.

Leandra teme que a transferência para o 3º BI contribua para relegá-los ao esquecimento.

"Estamos vivendo intensamente um dia após o outro. Hoje estamos está aqui, mas amanhã podemos acordar com o carro da prefeitura lá fora. Morro de medo de ter que sair. Mas não tenho para onde ir", diz.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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