Desabafo de deputado vira discussão ociosa

A votação da constitucionalidade de um projeto de decreto legislativo na reunião desta quarta-feira da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ) causou um inusitado tumulto, que transformou uma discussão sobre a reforma agrária em um debate sobre a conotação da palavra ?cacetada?.A matéria em votação propunha a anulação de um decreto do presidente da República que proíbe a vistoria ? procedimento necessário para efeito de desapropriação - de imóveis ocupados.Revoltado com a protelação da proclamação do resultado, o deputado José Genoíno (PT-SP) fez um protesto exaltado. Ele acusou o presidente da CCJ, Inaldo Leitão (PSDB-PB), de estar favorecendo o governo, na medida em que estendia o processo de votação para aguardar a chegada de deputados da base governista que estavam sendo convocados por assessores da liderança do governo para assegurar o quórum mínimo de 26 deputados a fim de dar validade à decisão.Genoíno reclamou que havia chegado cedo para a reunião, deixou de obstruir os trabalhos da Comissão quando não havia quórum para a aprovação da ata da reunião anterior e estava se sentindo desrespeitado ao ser obrigado a esperar a chegada de deputados que não participaram da discussão só para que o governo saísse vitorioso.?A partir de amanhã, vou pedir a verificação do quórum até para a aprovação de ata, estou cansado de colaborar com a comissão para depois tomar cacetada nas votações?, desabafou Genoíno, se retirando do plenário.?Vou me embora dessa palhaçada?, esbravejou, provocando a indignação de deputados governistas e a solidariedade dos oposicionistas.A partir daí, a reunião degenerou para um debate sobre as expressões usadas por Genoíno no desabafo. Uma série de intervenções e questões de ordem se sucederam por mais de 15 minutos, tempo suficiente para que cinco deputados votassem, completando o quórum mínimo.?Senhor presidente, peço que sejam retiradas das notas taquigráficas as expressões grosseiras e incompatíveis com o decoro, que não cabem na boca de um parlamentar do porte do deputado José Genoíno?, solicitou a deputado Zulaiê Cobra (PSDB-SP).?Cacetada é golpe de cacete usado em repressão policial, é uma palavra que consta do dicionário (significa pancada com cacete, bordoada, paulada, porrada ou chateação, segundo o Novo Dicionário Aurélio), e não é anti-regimental nem indecorosa?, reagiu o deputado José Roberto Batocchio (PDT-SP).?A polícia não usa cacete, usa cassetete?, corrigiu o deputado Zenaldo Coutinho (PSDB-PA). ?Quem deu cacetada em quem??, indagou o deputado Nelson Otoch (PSDB-CE). ?O deputado usou a expressão no sentido figurado?, respondeu Batochio.?Cacete tem dúbia interpretação, agora piorou?, reclamou Otoch, fechando a discussão surrealista, pouco antes de o presidente proclamar o resultado da votação. Os governistas venceram a votação por 18 a 8, considerando o projeto de decreto legislativo inconstitucional. Se não houver recurso ao plenário da Câmara, o projeto será arquivado.

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