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Agência Câmara
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Deputados veem 'rachadinha' de Arthur Lira como empecilho para candidatura na Câmara

Principal líder do Centrão, Lira é o candidato do Palácio do Planalto para substituir Rodrigo Maia

Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 12h09
Atualizado 05 de dezembro de 2020 | 00h44

BRASÍLIA – Líderes de partidos na Câmara afirmam que a revelação de que o deputado Arthur Lira (Progressistas-AL) esteve à frente de um esquema de "rachadinha" na Assembleia de Alagoas, segundo denúncia da Procuradoria-Geral da República, deve atrapalhar os planos do parlamentar de se eleger presidente da Casa. O caso foi revelado pelo Estadão nesta quinta-feira, 3.

Principal líder do Centrão, Lira é o candidato do Palácio do Planalto para substituir Rodrigo Maia (DEM-RJ) no cargo e ainda tenta reunir o apoio de mais legendas para o seu lado. Em caráter reservado, no entanto, quatro líderes de partidos que ainda não definiram para qual lado vão afirmaram à reportagem que o caso das "rachadinhas" será levado em conta na hora de a bancada decidir. Um quinto, que já definiu apoiar um nome indicado por Maia na disputa, disse que a revelação é uma "bomba atômica" na candidatura do parlamentar do Progressistas. Para outro, da oposição, Lira deve "se explicar" sobre o caso.

O bloco comandado pelo líder do Centrão reúne cinco partidos e soma 135 deputados. Como as conversas sobre a disputa pela presidência da Casa estão sendo feitas nos bastidores, deputados tem evitado fazer comentários públicos sobre o caso para não atrapalhar as negociações.

Ao chegar na Câmara na manhã desta quinta-feira, 3, Maia se limitou a dizer “não ter nada a ver” com a situação envolvendo o adversário político. 

Questionado sobre o caso, o líder do Novo, Paulo Ganime (RJ), disse esperar que o próximo presidente da Câmara seja alguém comprometido com o combate à corrupção. "Pessoas que tenham evidências concretas de terem cometidos crimes, não deveriam presidir a Câmara dos Deputados”, afirmou ele ao Estadão/Broadcast.

Como revelou o Estadão nesta quinta-feira, 3, documentos até então sigilosos obtidos pela reportagem indicam desvio, entre 2001 e 2007, de R$ 254 milhões dos cofres públicos. Somente o líder do Centrão movimentou R$ 9,5 milhões em sua conta. As informações estão em uma ação penal que Lira ainda responde na Justiça estadual. Ele já foi condenado pelo caso na esfera cível. 

As investigações apontam que a “rachadinha” na Assembleia de Alagoas ocorreu, em parte, quando Lira ocupava um cargo no comando do Legislativo estadual. De 2003 a 2006, ele foi primeiro-secretário, uma espécie de “prefeito” que administra os recursos do órgão, razão pela qual seu papel era central, uma vez que cabia a ele liberar o dinheiro. O esquema envolveu pelo menos 12 deputados estaduais. 

O caso de “rachadinha” na Assembleia Legislativa de Alagoas levou o deputado a ser condenado em segunda instância na área cível por improbidade administrativa. Esta decisão, de 2016, o impediria de disputar a eleição de deputado federal, em 2018, mas uma liminar do então vice-presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas, Celyrio Adamastor, suspendeu os efeitos da sentença e o liberou a concorrer. Foi eleito com 143.858 votos, numa aliança que reuniu PSDB, PSB, DEM, Republicanos, PTC, entre outros.

Lira foi indicado na terça-feira, 1, pelo seu partido para disputar a sucessão de Maia (DEM-RJ), em fevereiro do ano que vem. A presidência da Câmara é um cargo estratégico. O ocupante dessa cadeira define os projetos que serão votados e é o segundo na linha sucessória da Presidência da República. Na ausência do presidente e do vice, é ele quem assume o comando do País.

No Twitter, o deputado Ivan Valente (PSOL-SP), opositor ao governo e ao líder do Centrão, comentou sobre a relação de Lira com o presidente Jair Bolsonaro. “O Planalto está cada vez mais nas mãos do Centrão e distante do sonho de 2022. Bolsonaro, que sempre foi um expoente da velha política inepta e pantanosa, torce para Arthur Lira do PP levar a presidência da Câmara. Não surpreende. Autoritarismo e fisiologismo andam juntos”, escreveu Valente.     

Defesa. Em nota enviada por sua assessoria, Lira disse confiar que será absolvido pela Justiça alagoana. "O deputado Arthur Lira já apresentou sua defesa com todas as explicações necessárias, esclarecendo qualquer dúvida sobre a lisura de suas ações quando deputado estadual em Alagoas. Lira confia na Justiça e tem certeza de sua total e plena absolvição. Não há condenação contra o deputado", diz a nota. Ele já foi condenado na segunda instância pelo caso na esfera cível, por improbidade administrativa.

 

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Líder do Centrão liderou rachadinhas de 240 milhões, diz PGR

Apoiado por Bolsonaro para presidir a Casa, líder do Centrão é acusado pelo MPF de operar esquema que movimentou R$ 254 milhões

Breno Pires, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 05h00
Atualizado 05 de dezembro de 2020 | 00h44

BRASÍLIA – Candidato do Palácio do Planalto para o comando da Câmara dos Deputados nos próximos dois anos, o deputado federal Arthur Lira (Progressistas-AL) esteve à frente de um esquema milionário de “rachadinha” quando integrou a Assembleia Legislativa de Alagoas, segundo acusação do Ministério Público Federal. Documentos até então sigilosos obtidos pelo Estadão indicam desvio, entre 2001 e 2007, de R$ 254 milhões dos cofres públicos. Somente o líder do Centrão movimentou R$ 9,5 milhões em sua conta. As informações estão em uma ação penal que Lira ainda responde na Justiça estadual. Ele já foi condenado pelo caso na esfera cível. 

Para desviar o dinheiro da Assembleia, o “grupo criminoso” liderado por Lira, como destaca o processo, incluiu na folha de pagamentos funcionários fantasmas. O esquema, afirma a acusação, usava empresas de terceiros para simular negociações e empréstimos pessoais como forma de justificar a movimentação financeira nas contas dos parlamentares. 

Lira foi indicado nesta terça-feira, 1, pelo seu partido para disputar a sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ), em fevereiro do ano que vem. A presidência da Câmara é um cargo estratégico. O ocupante dessa cadeira define os projetos que serão votados e é o segundo na linha sucessória da Presidência da República. Na ausência do presidente e do vice, é ele quem assume o comando do País.

As investigações apontam que a “rachadinha” na Assembleia de Alagoas ocorreu, em parte, quando Lira ocupava um cargo no comando do Legislativo estadual. De 2003 a 2006, ele foi primeiro-secretário, uma espécie de “prefeito” que administra os recursos do órgão, razão pela qual seu papel era central, uma vez que cabia a ele liberar o dinheiro. O esquema envolveu pelo menos 12 deputados estaduais. 

PGR: Como funcionava a ‘rachadinha’ liderada por Arthur Lira

A organização foi alvo da Operação Taturana, da Polícia Federal, em 2007. Os investigadores apontaram que o grupo usou o dinheiro desviado para comprar carros, apartamentos e terrenos. A partir daí, foram abertos processos cíveis e criminais, mantidos em segredo de Justiça até o momento. 

A responsabilidade de Lira no esquema é detalhada em denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República, em 2018. Na ação, a ex-procuradora geral Raquel Dodge denunciou o deputado por crimes de peculato (desvio de dinheiro público) e lavagem de dinheiro. A íntegra do documento, de 30 de abril de 2018, ainda não tinha vindo a publico. 

Cheques

Com base em laudos da Polícia Federal e documentos da Receita Federal e do Conselho de Controle da Atividades Financeiras (Coaf), a Procuradoria registrou que cheques emitidos pela Assembleia, a título de pagamento salarial, iam parar em contas de pessoas físicas diferentes. Logo em seguida, os valores eram transferidos para parlamentares ou pessoas relacionadas a eles. 

“No cumprimento dos mandados de busca e apreensão na residência de Arthur Lira foi apreendida uma planilha denominada ‘Cheques em aberto a vencer’, contendo relação numérica de 566 cheques, cada um no valor de R$ 2.360,66, com valor total de R$ 1.336.133,56”, destaca trecho da denúncia. 

Na denúncia criminal, Dodge pediu a prisão e a perda da função pública de Lira e o pagamento do “dano mínimo” causado aos cofres públicos, ao fim do processo. A ex-procuradora-geral definiu o grupo como uma “quadrilha”. Em duas ocasiões, Dodge assinalou que só não incluiu o crime de organização criminosa na acusação porque já estava prescrito, ou seja, com o passar dos anos, não era mais passível de punição. Esse processo tramita na 3.ª Vara Criminal de Alagoas desde 2018 e ainda não foi julgado. 

Além da ação penal, o esquema de “rachadinha” levou o deputado a ser condenado em segunda instância na área cível por improbidade administrativa. Esta decisão, de 2016, o impediria de disputar a eleição de deputado federal, em 2018, mas uma liminar do então vice-presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas, Celyrio Adamastor, suspendeu os efeitos da sentença e o liberou a concorrer. Foi eleito com 143.858 votos, numa aliança que reuniu PSDB, PSB, DEM, Republicanos, PTC, entre outros. 

Quatro anos após a decisão de segunda instância, porém, o caso ainda não chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Faltava um mero despacho da presidência do TJ, que só foi dado em outubro passado. O Tribunal de Justiça de Alagoas disse ao Estadão que “a secretária está providenciando o envio do processo” ao STJ. 

A acusação cita como outros possíveis beneficiários do esquema 11 colegas parlamentares de Lira. Os nomes listados na denúncia não foram alvo da acusação apresentada pela PGR, mas alguns foram condenados em ação de improbidade. 

Defesa

O Estadão encaminhou por escrito perguntas a Lira na tarde de anteontem com prazo para resposta no dia seguinte. O deputado disse que não poderia apresentar sua defesa nas 24 horas solicitado pelo jornal e não quis se manifestar sobre o caso.

Após a publicação da reportagem, o parlamentar enviou, via assessoria, uma nota em que diz confiar que será absolvido pela Justiça alagoana. "O deputado Arthur Lira já apresentou sua defesa com todas as explicações necessárias, esclarecendo qualquer dúvida sobre a lisura de suas ações quando deputado estadual em Alagoas. Lira confia na Justiça e tem certeza de sua total e plena absolvição. Não há condenação contra o deputado", diz a nota. Ele já foi condenado na segunda instância pelo caso na esfera cível, por improbidade administrativa.

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PF identificou cheques em conta de Arthur Lira

Investigação aponta que três funcionários transferiram um total de R$ 1,06 milhão às contas do então deputado estadual de Alagoas

Breno Pires, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 05h00
Atualizado 03 de dezembro de 2020 | 20h57

BRASÍLIA – A investigação da Polícia Federal (PF) afirma que o esquema de "rachadinha" do então deputado estadual Arthur Lira (Progressistas-AL) usou como operadores o diretor financeiro da Assembleia Legislativa de Alagoas à época, Eduardo Albuquerque da Rocha, o motorista George Melo de Araújo Loureiro e o assessor Eudásio Gomes, que admitiu ter ajudado a desviar o dinheiro público. Segundo a apuração, os três funcionários, apontados como “entrepostos financeiros” de Lira, transferiram R$ 1,066 milhão diretamente para o deputado. 

Foi justamente na Assembleia Legislativa de Alagoas que a “rachadinha” teve uma das movimentações mais robustas entre os casos conhecidos até agora – o esquema tirou R$ 254 milhões dos cofres públicos, entre 2001 e 2007. A PF concluiu que 85% desses recursos saíram da folha de pagamento de servidores. 

A prática da “rachadinha” consiste no desvio de parte do salário de funcionários para parlamentares. O esquema da Assembleia do Rio, que tem como protagonista o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, foi menor que o de Alagoas e movimentou, segundo o MP, R$ 49 milhões entre 2011 e 2017. 

 

A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) obtida pelo Estadão indica que os três funcionários da Assembleia de Alagoas eram responsáveis por descontar cheques na boca do caixa ou depositar em suas próprias contas. Os valores desviados eram divididos depois entre os deputados. Por causa dessa atividade, a PGR os definiu como “entrepostos financeiros” de Lira. 

Embora as diligências tenham identificado transferências de R$ 1,066 milhão para o deputado, a movimentação financeira na conta dos servidores foi maior. Entre janeiro de 2004 e dezembro de 2005, Gomes e o motorista movimentaram R$ 12,4 milhões. 

À PF, o assessor Eudásio Gomes confessou ter participado da operação para desviar os recursos que foram parar na conta de parlamentares. No depoimento, ele disse que o diretor financeiro da Assembleia lhe repassava cheques para serem depositados em sua conta e na do motorista. Na maioria dos casos, os cheques eram de assessores de Lira, que trabalhavam no gabinete antes de ele se tornar líder do Centrão e favorito do Palácio do Planalto para assumir a Câmara. 

A conta de Gomes também recebia depósitos de cheques de servidores vinculados a outros quatro deputados estaduais – entre eles o então presidente da Casa, Celso Luiz. “Após o saque dos valores, o dinheiro era entregue ao próprio deputado estadual”, disse o ex-funcionário. 

O Estadão contatou Gomes para saber se ele, hoje, mantém as afirmações que prestou em depoimento. O ex-assessor afirmou que não desejava comentar o caso, pois estava tentando “apagar isso da vida”. Chegou a dizer que teve “a vida destruída” após o episódio, mas declarou não guardar raiva de ninguém. A PGR listou Gomes como informante a ser ouvido na ação penal, que corre em segredo de Justiça na 3.ª Vara Criminal de Maceió. 

Empréstimos

Um laudo da PF também apontou que Lira e os demais investigados simularam negócios com quatro companhias diferentes – Top Factoring, Multinvest Participações, Blumare Veicolo e Financial Factoring Fomento Mercantil. Apenas a Blumare recebeu 120 cheques emitidos pela Assembleia destinados ao pagamento de servidores comissionados, que somam R$ 249 mil. Ao mesmo tempo, a análise da movimentação nas contas de Lira revelou que a mulher do dono da empresa repassou R$ 210 mil a ele. 

O esquema também consistia em usar a verba de gabinete para quitar empréstimos pessoais nos bancos Rural e Bradesco. “No período que o deputado federal Arthur César Pereira de Lira foi o gestor financeiro da Assembleia Legislativa de Alagoas era comum a emissão de empenhos irregulares, com rubricas de ‘adiantamento de valores’, ‘contribuição’ e ‘contribuição parlamentar’”, destacou a denúncia da PGR. 

Defesas.Estadão encaminhou por escrito perguntas a Lira na tarde de terça-feira, 3, com prazo para resposta no dia seguinte. O deputado disse que não poderia apresentar sua defesa nas 24 horas solicitado pelo jornal e não quis se manifestar sobre o caso. 

Após a publicação da reportagem, o parlamentar enviou, via assessoria, uma nota em que diz confiar que será absolvido pela Justiça alagoana. "O deputado Arthur Lira já apresentou sua defesa com todas as explicações necessárias, esclarecendo qualquer dúvida sobre a lisura de suas ações quando deputado estadual em Alagoas. Lira confia na Justiça e tem certeza de sua total e plena absolvição. Não há condenação contra o deputado", diz a nota. Ele já foi condenado na segunda instância pelo caso na esfera cível, por improbidade administrativa.

As empresas Blumare Veicolo e Financial Factoring Fomento Mercantil também foram procuradas, mas não retornaram os contatos. A Top Factoring e a Multinvest não foram localizadas. 

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