Deputados são suspeitos de cobrar propina de empreiteiras

Suspeitando que integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga as obras inacabadas do governo federal estivessem tentando extorquir dinheiro das empreiteiras para livrá-las das investigações, os líderes dos partidos na Câmara rejeitaram por unanimidade o pedido de prorrogação por mais 60 dias do prazo final dos trabalhos. Ninguém se pronuncia abertamente sobre o caso, considerado um dos mais constrangedores para a Câmara dos Deputados nos últimos tempos. Vários líderes foram informados de que o presidente da CPI das Obras Inacabadas, deputado Damião Feliciano (PMDB-PB), e outros integrantes da comissão teriam tentado receber dinheiro das empreiteiras envolvidas em desvios e corrupção das verbas do governo federal destinadas a essas obras. O líder do PSDB, deputado Jutahy Júnior (BA), chegou a receber reclamações de que Damião teria pedido R$ 1 milhão de uma construtora da Bahia para não constá-la no relatório final da CPI, que deverá apontar as empresas suspeitas de uso irregular do dinheiro público. Por causa dessas suspeitas, o relator da CPI, deputado Anivaldo Valle (PSDB-PA), solicitou a Jutahy para ser substituído da função, usando a seguinte expressão: "Aquilo lá é uma gangue". Anivaldo acrescentou que se tivesse provas das suspeitas teria feito as denúncias, mas foi enfático: "Tive um desconforto muito grande de estar em uma comissão onde o presidente queria ser presidente, relator e a própria comissão".Decisão inéditaDiante da decisão unânime do plenário, nesta quinta-feira, de não prorrogar o prazo da CPI, um fato inédito no Congresso - é comum essas investigações se prolongarem -, o deputado Damião evitou defender uma nova data para apresentar o relatório final. Ele atribuiu a "forças estranhas" o fato de não poder fazer uma ampla defesa da prorrogação da CPI e disse que não daria nenhuma resposta a "boatos".No entanto, insinuou que as acusações estão relacionadas com a tentativa feita pela comissão semanas atrás de quebrar o sigilo bancário da empresa Bolognesi e Engenharia Ltda., sediada no Rio Grande do Sul. A empresa foi acusada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) pelo uso de 27 notas fiscais frias, no total de R$ 117 mil, ao prestar contas do asfaltamento da BR 386, no Rio Grande do Sul. As notas teriam sido emitidas pela empresa Betunel Indústria e Comércio Ltda."Não sei a origem dessas pressões, mas isso aconteceu a partir de quando tentamos aprovar a quebra do sigilo bancário dessa empresa", afirmou o deputado.Sócios e diretoresAlgumas atitudes chamaram a atenção das lideranças, como por exemplo o fato de a CPI ter solicitado a aprovação de uma série de requerimentos convocando sócios e diretores de empreiteiras para audiências públicas. Além disso, os integrantes da CPI viajaram para vários Estados - Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Bahia e São Paulo - para investigar "in loco" as obras inacabadas, consideradas verdeiros "ralos" de desvio de verbas públicas. Segundo o relator, em certa ocasião encontravam-se seis integrantes da comissão em São Paulo sem saber o que fazer. "Nem a lista das obras a serem vistoriadas o grupo tinha conhecimento", completou. Ao encaminhar a votação contrária ao requerimento, os líderes dos partidos foram unânimes em se declarar contra, apesar de não deixarem claro o motivo. Eles apenas justificaram que cinco meses - a CPI foi instalada em cinco de maio e se encerrará em nove de outubro - é mais do que suficiente para a comissão levantar as razões pelas quais centenas de obras federais se prolongam por mais de dez anos, consumindo somas de recursos públicos muito além do valor orçado inicialmente.

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