Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Deputados reagem à decisão de Lira de transferir imprensa para o subsolo da Câmara

Presidente da Câmara disse que aceita dialogar, mas tratou os questionamentos como ‘oportunismo político’

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2021 | 22h16

BRASÍLIA – Deputados reagiram nesta quarta-feira, 10, à decisão do presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), de transferir o local de trabalho de jornalistas para uma sala no subsolo do prédio do Congresso. O despejo está marcado para ocorrer nesta quinta-feira, 11. Lira disse que aceita dialogar, mas tratou os questionamentos como “oportunismo político”.

A mudança deve dificultar o trabalho da imprensa. Isso porque o espaço onde hoje ficam os jornalistas tem acesso direto ao local de votações, o que permite agilidade na hora de informar o que se passa nas sessões. A sala agora abrigará o gabinete de Lira. A transferência também evita o acesso ao presidente da Câmara, que poderá ingressar no plenário diretamente, evitando, assim, ser abordado por profissionais de imprensa e de outros setores. 

“Há 60 anos, a imprensa brasileira ocupa esse espaço que Vossa Excelência quer ocupar para fazer a sua sala da presidência. Ele é muito grande para comportar apenas uma pessoa”, disse o deputado Hildo Rocha (MDB-MA). “Não é possível que Vossa Excelência queira colocar nos porões desta Casa os profissionais da imprensa. Eles merecem muito mais, merecem respeito, merecem consideração e merecem o nosso carinho”. 

Atualmente, o gabinete do presidente da Casa está localizado a poucos passos do plenário, mas, para chegar até lá, Lira precisa cruzar o Salão Verde, onde a circulação é livre. É comum deputados serem questionados sobre votações e decisões polêmicas justamente quando atravessam esta área.

O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) também questionou a decisão. “Nós sabemos do papel que tem a imprensa livre e crítica para fortalecer a democracia no Brasil, e é uma tradição da Casa existir um espaço que eles ocupam”, disse.

Após os questionamentos, Lira respondeu que a decisão havia sido tomada na gestão anterior, de Rodrigo Maia (DEM-RJ). Ele disse estar aberto para encontrar uma solução, mas em seguida disse que a decisão “está tomada”. “Vamos conversar hoje, mas a decisão da Mesa Diretora está tomada. Nós iremos dialogar para dar um conforto e mais possibilidade de que a imprensa exerça o seu papel, sempre com democracia, sem nenhum tipo de oportunismo político”, afirmou o presidente da Câmara.

TV ESTADÃO:  Lira transfere imprensa para subsolo no prédio do Congresso

“O que a imprensa reclama é que não pode ficar distante do plenário. E nós vamos conversar e dialogar como sempre fizemos, para acharmos uma solução viável, que atenda a todos, não só à imprensa, mas principalmente o funcionamento desta Casa com a ajuda da imprensa”, afirmou.

Segundo Lira, “não há nenhum problema no lugar que foi oferecido à imprensa”. “Uma sala de 107 m² com copa, com banheiro, com sistema analógico, todo sistema virtual, com 40 baias”, disse ele. O projeto do novo espaço apresentado aos jornalistas, no entanto, não tem banheiros e também não tem janelas. 

No Twitter, o deputado Baleia Rossi (MDB-SP), adversário de Lira na eleição da Câmara, pediu “respeitosamente”, para que ele não mude o local de trabalho da imprensa. Rossi ainda mencionou, como justificativa, que atuou ao lado do presidente da Casa em projetos que mereciam ampla cobertura da mídia.

A deputada Tabata Amaral (PDT-SP) também usou a rede social para criticar a transferência e disse que é “contra quaisquer barreiras ao trabalho dos jornalistas”, visto que a função social do jornalismo é fiscalizar o governo, “seja qual for”.

Na mesma direção, a líder do PCdoB, Perpétua Almeida (PCdoB-AC), afirmou que “decisões sem justificativas”, como, de acordo com ela, a de Lira sobre os repórteres, não estimulam a democracia nem a transparência que o Congresso deve ter.

A realocação do Comitê de Imprensa também foi alvo de críticas da deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) no Twitter. “Jogar a imprensa no ‘porão’? Afastar dos deputados? Por quê?”, questionou, classificando como um “absurdo” destinar a imprensa ao subsolo da Casa.

Usando a hashtag “Câmara sem Mordaça” para repudiar o deslocamento, o deputado José Guimarães (PT-CE) expressou apoio ao trabalho dos meios de comunicação. “A atuação desses jornalistas enriquece a produção legislativa de nossa Casa, além de garantir transparência”, escreveu em sua conta na rede.

A bancada do PSOL na Câmara também se manifestou nas redes sociais, ao declarar apoio aos jornalistas e aos veículos de comunicação. “Mais uma vez, Lira se alinha às práticas do Palácio do Planalto, que sistematicamente cerceia a liberdade de imprensa”, di a postagem.

Entidades criticam transferências

Em manifestações divulgadas na terça-feira, 9, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) criticaram a medida adotada por Lira.

“A ANJ lamenta a decisão, que não contribuiu para aproximar a imprensa do Legislativo. Os jornalistas que atuam na Câmara têm papel essencial no acompanhamento das atividades da Casa e na relação dos deputados com a sociedade. Toda medida que dificulta o trabalho da imprensa atenta contra a transparência do parlamento e a necessária cobertura e acompanhamento dos trabalhos legislativos”, diz a nota da entidade.

Já a Fenaj faz um apelo a Lira para que mantenha o Comitê de Imprensa ao lado do plenário.

“Os jornalistas que fazem a cobertura diária da Câmara dos Deputados têm a missão de informar à sociedade brasileira sobre os debates que ocorrem na Casa e das decisões tomadas pelos deputados. Sabiamente, o arquiteto Oscar Niemeyer projetou o Comitê de Imprensa ao lado do plenário, justamente para que os jornalistas tivessem acesso ao principal local de debates e deliberações. Ao propor a mudança do Comitê de Imprensa para o subsolo do prédio, o presidente – ainda que não tenha tido a intenção – desmerece o trabalho da imprensa, dificultando o acesso dos Jornalistas ao conjunto dos deputados e a si próprio. A medida, se concretizada, fere a memória da Casa, que, desde sua instalação, abriu espaço e facilitou a atuação dos Jornalistas. Por isso, a FENAJ pede ao presidente Arthur Lira que reveja a decisão, mantendo o Comitê de Imprensa onde sempre esteve: ao lado do plenário”, diz o texto.

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