Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Deputados contrataram empresa de marqueteiro do Aliança para atuar nas redes sociais

Inclutech ainda estava registrada como do ramo de cosméticos quando recebeu R$ 6,4 mil da deputada Bia Kicis para divulgação de atividade parlamentar

Breno Pires, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2020 | 16h37

BRASÍLIA - Alvo da Procuradoria-Geral da República (PGR), a empresa Inclutech Tecnologia da Informação ainda estava registrada como do ramo de cosméticos quando recebeu R$ 6,4 mil da deputada Bia Kicis (PSL-DF) para divulgação de atividade parlamentar. Esse foi o primeiro de uma série de pagamentos por deputados bolsonaristas que somam R$ 44,4 mil entre março e abril. A empresa pertence a Sérgio Lima, o marqueteiro do Aliança Pelo Brasil, partido que o presidente Jair Bolsonaro tenta tirar do papel. Ele diz trabalhar para a legenda como voluntário.

O que atraiu a atenção dos investigadores é a suspeita de que a Inclutech seja uma das peças em uma rede estruturada de comunicação virtual para promover atos antidemocráticos. Uma das hipóteses da PGR é que empresários e políticos têm agido para uma "possível desestabilização do regime democrático para auferir ganhos econômicos diretos e políticos indiretos". O inquérito preocupa o Palácio do Planalto, por atingir aliados de primeira hora do presidente, como a própria Bia Kicis e a deputada Carla Zambelli (PSL-SP).

A empresa, o marqueteiro do Aliança pelo Brasil e 11 parlamentares bolsonaristas foram alvo de quebra de sigilo bancário, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF, na semana passada. Além disso, operação policial fez busca e apreensão em relação a 21 alvos, incluindo nos endereços de Sérgio Lima e da Inclutech, situada no Jardim Europa, em São Paulo.

Até fevereiro, a empresa estava registrada como HH Cosméticos e Perfumes Ltda. A nota fiscal de R$ 6,4 mil emitida para a deputada Bia Kicis ainda apresenta o nome anterior, com a observação: "Em processo de alteração para Inclutech Tecnologia da Informação Ltda".

Desde então, a empresa recebeu R$ 10 mil da deputada Aline Sleutjes (PSL-PR), três pagamentos de R$ 6,5 mil do deputado Guiga Peixoto (PSL-SP) e outros três de R$ 7,5 mil do deputado General Girão (PSL-RN). Os valores somados passam de R$ 58 mil, considerando também pagamentos feitos em maio e junho.

Os serviços apontados nas notas fiscais variam entre criação e elaboração de vídeos para a internet, gestão e monitoramento das redes sociais, acompanhamento de notícias e sugestões para produção de conteúdo.

A PGR, no entanto, considera que os deputados contrataram a Inclutech "para promover, na internet, o respectivo apoiamento aos atos antidemocráticos". Os quatro parlamentares que contrataram a empresa tiveram sigilo bancário quebrado.

"Pode haver abusos e crimes que precisam ser apurados a partir do esclarecimento do modo de funcionamento estruturado e economicamente rentável de uma escala de organização e agrupamento com pretensões aparentes de execução de ações contra a ordem constitucional e o Estado Democrático e provocação das Forças Armadas ao descumprimento de sua missão constitucional”, disse a PGR na representação que deu origem à operação da PF.

O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, disse que os "indícios apresentados na manifestação apresentada pela Procuradoria-Geral da República confirmam a real possibilidade de existência de uma associação criminosa".

Empresário nega irregularidades

O empresário Sérgio Lima nega ter promovido ataques às instituições. "Se pegar um post onde eu incentivo ato antidemocrático você me manda porque eu jamais apoiei ato antidemocrático ou ataque à Constituição ou ataque a qualquer pessoa", disse ao Estadão.

Lima disse que entrou na área do marketing político por identificação com a causa do Aliança Pelo Brasil. "No Aliança, eu sou 100% voluntário. Estou no projeto porque que acredito", disse.

O empresário afirmou também que não há nenhuma relação entre o trabalho no Aliança Pelo Brasil e os pagamentos feitos pelos deputados. "Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E eu não recebi R$ 50 mil. Eles pagam mensalidade que é um valor abaixo do mercado", disse.  "Eu passei a oferecer serviço aos deputados com quem eu já tinha alguma relação por conta do trabalho do Aliança pelo Brasil. Não tem nada de ilícito nisso."

A deputada Aline Sleutjes disse jamais ter apoiado atos antidemocráticos e que deixou de contratar a empresa. "Infelizmente o serviço não foi o que a gente esperava", justificou. Ela criticou as medidas determinadas pelo Supremo Tribunal Federal.

A assessoria do deputado Guiga Peixoto afirmou que a empresa Inclutech foi apresentada ao parlamentar pelo Aliança Pelo Brasil, prestou o serviço e recebeu o dinheiro legalmente. O deputado, segundo a assessoria, não tem vínculo nem com Sérgio Lima nem com a Inclutech.

A deputada Bia Kicis disse ao Estadão que os gastos com a Inclutech foram legais. "Ao contrário das ilações feitas nesse inquérito ilegal e abusivo, os gastos são para divulgação de mandato parlamentar, são legais e estão previstos no regimento da Câmara dos Deputados. Não houve qualquer manifestação antidemocrática de minha parte. O que há é uma investigação que se reveste de perseguição política contra apoiadores do Presidente Bolsonaro", afirmou a deputada.

A assessoria de imprensa do deputado General Girão não se manifestou até a publicação da notícia.

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