Deputado vigiava tribunais para soltar traficante

As investigações feitas pela Polícia Federal (PF) em torno do traficante Leonardo Dias Mendonça revelaram que o esquema supostamente montado pelo deputado federal Pinheiro Landim (PMDB-CE), para facilitar a concessão de habeas-corpus para o traficante, controlava as pautas dos tribunais, destacando quem participaria das sessões. "Tem de ser na hora certa, para cair na pessoa certa. Isso tem uma estratégia", explicou Landim a Wilson Moreira Torres, sócio de Dias Mendonça, conforme gravação feita pela PF.Nas investigações, a polícia confirmou que o grupo esperava a falta de determinados juízes para colocar o processo em votação. Em uma das conversas, o secretário de Dias Mendonça, Luiz Antônio Gonçalves de Abreu, fala com uma interlocutora sobre um habeas-corpus em favor do traficante, deixando claro que está esperando uma oportunidade para colocar em julgamento, mas ressalta que um dos juízes teria de faltar.Seria exatamente um dos que não concordariam com a decisão esperada por Dias Mendonça. "Tá esperando a oportunidade para colocar lá, parece que um rapaz (juiz) tem de faltar", afirma Abreu. "Ah, então tá tranqüilo", responde a interlocutora. "Tá, já tá na mão do rapaz, já tá na terça e quinta", encerra Abreu.Pelo levantamento feito pela PF, o número de pessoas que participavam das operações era grande. Entre elas, estava o motorista de Landim, José Antônio de Souza, Francisco Olímpio, Antônio Carlos Ramos, Helder Dias Mendonça - irmão de Leonardo - Igor de Oliveira, Abreu, Wilson Torres e Sílvio Rodrigues da Silva.O deputado, segundo as gravações, pouco conversava com Dias Mendonça, principalmente sobre os habeas-corpus. Um dos interlocutores entre os dois era Torres. E foi com o sócio do traficante que Landim conversou em outubro de 2001, poucos dias antes da votação do recurso na Justiça.Na ocasião, o parlamentar explicou para Torres os meios de impetrar o habeas-corpus para que fosse atendido. "Tem de ter muita cautela, viu? Muita cautela, muita cautela", ensinou Landim. "Isso é assunto para ficar calado, esperando o resultado."Mas a cautela do parlamentar não agradava nem a Torres nem a Dias Mendonça. Em uma troca de telefonemas entre ambos, dois dias depois da conversa com o deputado, o sócio do traficante relata a conversa que teve com Landim. "Rapaz, eu falei com aquele velho (Landim) lá, mas fiquei foi p...com ele", disse Torres. "Eu também falei...eu falei", responde Dias Mendonça, confirmando que conversara com Landim sobre o mesmo assunto.No mesmo dia, o traficante liga para o advogado Amauri Perez e reclama: "Depois que pega, meu irmão, aí acabou. Aí descansa, entendeu?". A PF avalia que Mendonça havia pago para alguém e não teve resultado concreto em seu pleito. Muitas das conversas estão em código, sendo o deputado chamado em várias ocasiões como "velho", "cearense" ou "cabeça branca". Dias Mendonça aparece sempre como "Pequeno".Pinheiro Landim não atendeu as ligações do Estado até o início da noite desta quinta-feira. Seus assessores informaram que ele falaria sobre o assunto, o que acabou não acontecendo.

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