Andre Dusek/Estadao
Andre Dusek/Estadao

Deputado do PT pede indiciamento de 46 em relatório criticado até por governistas

Odair Cunha causa tumulto ao apresentar documento que tem como alvo governador tucano, procurador-geral da República e jornalista da revista ‘Veja’

Eugênia Lopes, de O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2012 | 22h42

BRASÍLIA - O deputado petista Odair Cunha (MG) apresentou na quarta-feira, 21, seu relatório sobre a CPI do Cachoeira com 46 pedidos de indiciamento. O documento causou tumulto e dividiu os integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito. O relator foi obrigado a adiar para esta quinta-feira a leitura do resumo de seu trabalho, que deverá ser votado em plenário na quarta-feira da semana que vem.

São alvo de pedidos de indiciamento o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), ex-assessores do tucano, o dono da construtora Delta, Fernando Cavendish, o deputado Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) e o prefeito de Palmas, Raul Filho (PT).

A polêmica, no entanto, ocorreu no pedido de indiciamento de jornalistas, entre eles o redator-chefe da Veja Policarpo Junior, e na recomendação de que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, seja investigado pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

A tendência é que parlamentares da oposição e do chamado de "independentes" - que inclui membros do governista PDT, por exemplo - ganhem o apoio de parte dos aliados e consigam derrubar o pedido de indiciamento de Policarpo e a sugestão de investigação contra Gurgel.

Mesmo os partidos aliados consideraram uma "vingança" do PT a inclusão do procurador-geral no relatório final. Gurgel foi o responsável por defender a condenação das principais personalidades petistas envolvidas no escândalo do mensalão, como o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-presidente nacional do partido José Genoino.

"Fica parecendo que o relator está usando a CPI como uma vingança. Não tem espaço para aprovar tudo que foi colocado de maneira pessoal no relatório", afirmou o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA). "É uma prerrogativa do procurador-geral avaliar se um processo tem ou não de andar", afirmou o vice-líder do governo na Câmara, Luciano Castro (PR-RR). "O procurador e o jornalista são vítimas do objetivo político de atingir determinadas pessoas", disse o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB).

O relator se defendeu. "Não tem birra com o Ministério Público. Há indícios de omissão dolosa na resposta que o procurador mandou para a CPI", afirmou o deputado petista, segundo quem é preciso apurar se Gurgel deixou mesmo de tomar providências para investigar em 2009 o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) mesmo diante de indícios levantados pela Operação Vegas da Polícia Federal. Demóstenes, que já teve o cargo cassado, também teve o nome incluído na lista de indiciamentos.

"O Policarpo extrapolou o limite de fonte e jornalista", afirmou Cunha sobre o jornalista, que aparece nos grampos da Operação Monte Carlo da Polícia Federal em conversas com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

O petista pediu o indiciamento do jornalista por suspeita de formação de quadrilha, sob a alegação das relações "constantes e permanentes" com Cachoeira, apontado como chefe de um esquema de fraudes em licitações e contratos de vários governos.

O relator sugeriu o indiciamento pelo mesmo crime de outros quatro jornalistas de Goiás: Wagner Relâmpago, Patrícia Moraes, João Unes e Carlos Antônio Nogueira.

‘Pizza’. A oposição e os parlamentares "independentes" acusam Cunha de "assar uma pizza" ao apresentar um relatório em que não aprofunda as investigações sobre a Delta Construções, empreiteira com estreita ligação com Cachoeira e detentora de contratos com o governo federal e com vários governos estaduais e municipais. A comissão deixou de investigar, dizem, 117 empresas que firmaram contratos suspeitos com a Delta, além de não identificar os beneficiários do dinheiro arrecadado pelo esquema.

Os parlamentares reclamam também do fato de o relator ter poupado os governadores do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz, e do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB). Cunha afirma não ter encontrado indícios de crimes nas relações entre os dois governadores com Cachoeira.

O relator também evitou citar o depoimento do ex-diretor do Departamento Nacional da Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antonio Pagot, que admitiu ter pedido a empresas que tinha contratos com o órgão doações para o PT na campanha presidencial de Dilma Rousseff, em 2010. "Esta CPI se transformou numa farsa", disse o senador Pedro Taques (PDT-MT).

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