Lúcio Bernardo Jr./Divulgação
Lúcio Bernardo Jr./Divulgação

Deputado do 'baixo clero' diz se sentir igual a besta

Na véspera do carnaval, parlamentar do PRB acusa governo de jogo de empurra para barrar liberação de emenda: ‘Tratam a gente como moleque’

Marcelo de Moraes, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 23h01

Brasília - O deputado federal César Hallum (PRB-TO) não pertence, como ele mesmo diz, ao "alto clero" do Congresso Nacional. Seu Estado, o Tocantins, tem apenas oito representantes na Câmara. Seu partido, o PRB, é representado na equipe ministerial com a pasta da Pesca. Pertence, portanto, àquela massa de deputados da base aliada da presidente Dilma Rousseff que costuma apoiar sem barulho as propostas enviadas pelo governo federal quase sempre sem ser muito notado.

Mas nesta sexta-feira, 28, na véspera do feriadão do carnaval, com o plenário da Casa esvaziadíssimo, Hallum protagonizou um dos discursos mais sinceros e contundentes em termos de queixas ao tratamento dado por Dilma e seus ministros aos aliados. "Todos estamos fazendo um esforço muito grande para poder ajudar a presidente Dilma para que o Brasil possa crescer. Mas eu estou observando que lá pela SRI (Secretaria de Relações Institucionais) e por outros ministérios fazem tudo para não deixar apoiar a presidente Dilma, nos jogam fora. Fazem da gente gato e sapato."

Hallum resolveu fazer barulho porque se disse, literalmente, cansado de "ser tratado como moleque" pelo governo federal.

Num jogo sem hipocrisia, deputados apoiam o governo e, em troca, querem a liberação de recursos para suas emendas parlamentares. Com isso, fazem suas políticas paroquiais e aumentam as chances de serem reeleitos. É o movimento de sempre, de toma lá, dá cá.

Os parlamentares reclamam, porém, que o governo parou de fazer a sua parte. Ou faz apenas depois de enorme insistência do congressista. Por causa disso, surgiu o chamado "blocão parlamentar", que se proclama independente e que, em tese, se dispõe a votar contra projetos de interesse do governo. Pelo tom do deputado Hallum, a paciência de alguns acabou.

"Vou dar um exemplo simples do Ministério da Agricultura. Coloquei R$ 500 mil numa emenda para estradas vicinais no município de Aragominas, no Tocantins. Quando chegou lá pelo dia 15 de dezembro, me chamaram: ‘Olha, o município vai perder a emenda. Vamos trocar o município’. Eu corri e atendi o município de Carrasco Bonito. Coloquei a emenda de R$ 500 mil para Carrasco Bonito. Foi feita a proposta, foi apresentado o projeto. E diziam: ‘está empenhado, empenhado e empenhado. Então, tudo bem. Quando chegou no dia 31 de dezembro, não empenharam. Mas não estava o limite aqui? É. Mas o dinheiro sumiu. Eu não sei onde ele está. Vai à SRI. Não, já mandei o limite para lá. Chego lá: Não, aqui não chegou. Eu volto para lá, igual besta. Tratam a gente como moleque", disse Hallum.

Sem meias palavras, o deputado continuou sua narrativa pela busca da verba perdida e o jogo de empurra ao qual disse ter sido submetido. "Ontem (quinta-feira, 27), estive no Ministério da Agricultura. Vamos abrir o jogo, porque disse à ministra Ideli (Salvati, de Relações Institucionais) em um dia aqui, na reunião dos partidos da base: ‘ministra, se a senhora disse que mandou o limite para lá e o ministro pegou o dinheiro e deu para quem ele quis lá do Estado dele, beneficiou parlamentar da bancada dele, isso não é certo. Isso é, no mínimo, desonesto ou então é incompetência, e nem desonestidade e nem incompetência servem para administrar. Então, se acham que o ministro fez errado, demitam o ministro. Mas, se o governo não demite o ministro, é porque está concordando com isso."

‘Credibilidade’. O deputado do PRB reclamou também que está perdendo a credibilidade com sua base eleitoral. "Pois bem, hoje o prefeito de Carrasco Bonito acha que eu estou mentindo para ele, que não coloquei a emenda para ele. E nós parlamentares estamos ficando mal na nossa base por conta dessas coisas aqui", afirmou. "Estão dizendo assim: vocês estão querendo, mas nós não queremos vocês. Vão embora, vão para o outro lado. Eu estou entendendo assim."

No discurso, Hallum também disse não temer retaliações. "Vejo aqui a turma falar: César, você vai falar isso e você vai ficar marcado, porque eles vão te perseguir de agora para frente. Mais? Eu já não recebo nada!", disse. "A gente também não é filho sem pai, não. Tem quem quer! Agora, eu quero ter uma relação boa com o governo, e estou vendo os ministros do governo Dilma querendo destruir a nossa relação. A gente vota o orçamento impositivo, e eles, da forma mais descarada, no maior desrespeito, vão lá, cortam 25% das emendas e não dão nem satisfação. É como se nós não existíssemos. Esta Casa não pode viver de cócoras para o Poder Executivo, porque aí é o fim do Parlamento brasileiro", encerrou.

Cortes. A pressão de ministérios para que parlamentares indiquem cortes lineares em suas emendas causou um novo desgaste na já tumultuada relação entre o governo e o Congresso. Na semana passada, o governo anunciou um congelamento de despesas na ordem de R$ 44 bilhões, sendo que R$ 2,17 bilhões foram cortados em emendas individuais. A reclamação é maior porque este é o primeiro ano de vigência do chamado orçamento impositivo, que torna obrigatório a execução de emendas.

Após o contingenciamento, ofícios encaminhados nesta semana pelas pastas da Agricultura e Integração Nacional exigindo cortes de 25% nas dotações provocaram irritação de congressistas, que querem evitar exposição negativa perante suas bases em ano eleitoral.

A articulação política do governo interveio e prometeu que o contingenciamento será realizado de acordo com as prioridades definidas pelos parlamentares no início do ano. "Quando os deputados estabelecem as prioridades, levam em consideração as prioridades dos municípios. É um critério que o governo mesmo pediu", disse o deputado Marcos Rogério (PDT-RO). "Isso demonstra mais uma vez a falta de habilidade política com que o Planalto vem tratando o Congresso, principalmente a sua base de apoio", protesta o deputado Jerônimo Goergen (PP-RS). / COLABORARAM RICARDO DELLA COLETTA e EDUARDO BRESCIANI

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