Facebook / Reprodução
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Deputado defende auxílio de R$ 600 e live vira a mais comentada no mundo ocidental no Facebook

Transmissão de André Janones atingiu 3,3 milhões de visualizações e 177 mil comentários, de acordo com pesquisador Fábio Malini, do Labic

Felipe Frazão e Alexandre Bazzan, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 20h48

Foram 4 minutos e 44 segundos de um tom bastante apelativo. “Agora! Atenção!”, repetia o deputado André Janones (Avante-MG), tal qual um locutor de promoção em supermercado, para tentar mobilizar sua rede de seguidores virtuais pelo auxílio-emergencial de R$ 600. De seu gabinete em Brasília, sem qualquer preocupação estética além de uma camisa social e gravata roxa, Janones fez na terça-feira, 1º, pela manhã, a live mais comentada no mundo ocidental no Facebook.

“Eu preciso de vocês agora, nós temos informações de dentro do Palácio do Planalto de que o clima está muito tenso. Eles estão lá agora reunidos, atentos a tudo que está acontecendo aqui fora”, dizia o deputado, enquanto o presidente Jair Bolsonaro afinava o discurso com a equipe econômica e sua nova base parlamentar do Centrão para anunciar a redução do auxílio à metade. “Não é justo que o povo brasileiro tenha que enfrentar essa pandemia com auxílio de R$ 300 por mês enquanto a classe política continua do alto de seus mais de R$ 30 mil mensais”, afirmava ele, que recebe esse mesmo salário criticado.

Janones atingiu 3,3 milhões de visualizações e 177 mil comentários. O monitoramento é do pesquisador Fábio Malini, do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic). O deputado igualou a marca da pop star sertaneja Marília Mendonça, cantora recordista no YouTube durante a pandemia do novo coronavírus.

No vídeo, Janones dá dicas para o que afirma ter sido crucial para atingir tamanha visibilidade e engajamento: a convocação de um tuitaço com a hashtag #600pelobrasil. Focado no Facebook, onde tem 6,7 milhões de seguidores, ele recentemente expandiu sua atuação para o Instagram, rede de fotos e vídeos, para a plataforma de vídeos YouTube e o microblog Twitter. Animado, Janones ensinava como os seguidores deveriam fazer para levar a campanha pela manutenção dos R$ 600 ao “top trendics” (sic) da rede – na verdade, o parlamentar queria dizer trending topics – os assuntos mais comentados do momento.

“Vai lá no Twitter agora. Não precisa escrever mais nada: jogo da velha, que é a hashtag, 600 pelo Brasil, tudo emendado. Seis, zero, zero, pelo, com p minúsculo, e Brasil com b minúsculo. Não vamos entregar o jogo. É importante essa hashtag subir agora. Vamos ser notícia no Brasil, vamos mostrar que o povo não aceitou, não desistiu de lutar”, orientou o deputado.

Ao Estadão, Janones disse que o vídeo cresceu de forma espontânea, e que tudo é produzido por ele mesmo, “sem superprodução”, a lá clã Bolsonaro. Apesar disso, ele admitiu ter pagado por impulsionamento em outras ocasiões. A Câmara registra despesas de R$ 28 mil, neste ano, com propaganda do deputado no Facebook, e mais R$ 20,8 mil com consultorias e trabalhos técnicos, entre as quais produção de vídeos para suas redes. Segundo Janones, foram despesas pontuais para divulgar emendas enviadas para cidades do interior.

A ascensão virtual é atribuída por ele à greve dos caminhoneiros, em 2018, quando se tornou nacionalmente conhecido como liderança – o parlamentar atuava como advogado do movimento. Sem a greve e o Facebook, diz que não teria sido eleito. Mas também reputa a eleição aos dez anos de trabalho social no Triângulo Mineiro, prestando atendimento como advogado a pessoas que buscavam tratamento médico no Sistema Único de Saúde (SUS). Foi, ainda, cobrador de ônibus, escrevente no Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Com apoio das redes, em 2018, recebeu 178.660 mil votos. Antes, havia perdido a eleição para prefeito de Ituiutaba (MG), sua cidade natal.

A mobilização pelo auxílio emergencial rendeu mais de 2 milhões de curtidas ao deputado na rede social de Mark Zuckerberg, de acordo com dados do CrowdTangle, a ferramenta de Insigths do Facebook. Janones contou que passou a crescer mais há uma semana, quando Bolsonaro instou uma seguidora a dizer de onde tiraria dinheiro para manter o auxílio de R$ 600. Ela usava argumentos de Janones para questionar o presidente e o deputado aproveitou a brecha para enviar sua proposta ao Ministério da Economia.

Em lives, Janones reveza um tom exaltado para comentar o cenário político e professoral ao explicar para os seguidores como retirar os benefícios. Seus vídeos têm números de visualização comparáveis a estrelas da música pop, como Anitta. No dia 8 de agosto, por exemplo, ele passou o número de interações de Bolsonaro e está com taxa de interação maior que a do presidente durante toda a pandemia, mesmo tendo 7 milhões de seguidores a menos. Em 18 de agosto ele ultrapassou o número de views de vídeo de Bolsonaro pela primeira vez, dando a notícia de prorrogação do auxílio emergencial.

Um dos “hits” de Janones é a live em que ele reage ao processo de cassação aberto no Conselho de Ética da Câmara por ter chamado colegas da Casa de “corruptos” nas redes sociais. De acordo com o deputado, foram 32 milhões de visualizações, o que faz da live do auxílio “fichinha”. A estética amadora é intencional e ele não pretende mudar. “Fica algo muito verdadeiro, natural, intimista e personalizado”, afirmou.

O deputado diz que tem sido cortejado com pedidos de apoio Brasil afora e que não vai ser candidato a prefeito, nem apoiar ninguém fora de sua cidade natal e arredores. O Avante chegou a considerar Janones como candidato a prefeito de Belo Horizonte, mas deve lançar o vereador Fernando Borja.

Deputado de primeiro mandato por um partido do Centrão, o Avante (Ex-PTdoB), ele se recusa a dizer se é de esquerda, de direita ou de Centro. Enquanto seu partido tem uma taxa de governismo de 77%, Janones só deu 49% dos votos a favor de Bolsonaro na Câmara. Ele afirma que pretende se distanciar da polarização -- “não me permito me rotular” -- e que isso não significa “ficar em cima do muro”.

“O Brasil real está se lixando para defender ou criticar o presidente ou a oposição. O Brasil de verdade está preocupado em colocar comida na mesa. Eu quero representar o interesse da a maioria, e hoje só se dá voz aos extremos. O povo preocupado se o auxílio vai aumentar ou diminuir, e na TV Câmara e nas redes sociais a esquerda chamando o presidente de ‘Bozo’ e de ‘laranjal’ e a direita, de mito”, disse. “Essa posição de destaque não reflete a mim, ao meu partido, minha bancada e nenhum segmento ideológico. Tenho seguidores que são eleitores do Bolsonaro, do PT, do Centro, todo o espectro político.”

Janones afirma que, do vereador ao presidente da República, a classe política em colisão ideológica está desconectada da população e será não será perdoada por ter responsabilidade pelo que ele prevê como consequência para um futuro breve, com o quadro de recessão. A nova medida provisória do auxílio, segundo ele, não passa no Congresso com valor de R$ 300. “ACABO DE DECIDIR que não vou sair de Brasília nem por um minuto nas próximas semanas!”, escreveu ele nesta quarta-feira, 2, no Facebook.

Mais tarde, ao Estadão, Janones afirmou que a fome voltará a ser o maior problema do País. “O governo está certin (sic) em falar em responsabilidade fiscal, o momento é que está errado, no meio de uma pandemia, com milhares de mortos e milhões de pessoas à beira da miséria. Gasta o que tiver que gastar, endivida o que tiver que endividar e depois a gente une o País e corre atrás do prejuízo. Não dá para, sob pretexto de salvar as futuras gerações, matar a presente”, disse ele.

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