'Deputado da meia' renuncia ao mandato no DF

Leonardo Prudente foi flagrado em vídeo no qual guarda maços de dinheiro nos bolsos e até nas meias

CAROL PIRES, Agencia Estado

26 de fevereiro de 2010 | 18h27

O deputado distrital Leonardo Prudente (sem partido, ex-DEM) renunciou nesta sexta-feira, 26, ao mandato para evitar a perda de direitos políticos, uma vez que é alvo de processo por quebra de decoro parlamentar na Câmara Legislativa do Distrito Federal.

 

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Ao final do processo, a Casa teria a opção de decretar uma punição ao deputado, que poderia variar de uma simples advertência até a cassação do mandato e a inelegibilidade por cinco anos. Outros dois deputados respondem a processo disciplinar - Eurides Brito (PMDB) e Júnior Brunelli (PSC). A renúncia de ambos também é dada como certa.

 

Prudente é um dos símbolos do esquema de corrupção descoberto no governo do Distrito Federal. Vídeo no qual ele recebe maços de dinheiro de suposta propina e os guarda nos bolsos das calças e até nas meias foi veiculado à exaustão pela imprensa. Ele protagoniza vídeo no qual reza ao lado do deputado Júnior Brunelli agradecendo pela vida do ex-secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa, principal testemunha da Operação Caixa de Pandora, que outro executava a função de distribuir entre assessores, secretários de governo e deputados distritais o dinheiro ilegal.

Pouco antes de renunciar, Leonardo Prudente divulgou carta pública na qual reconhece que as imagens são "fortes" e pede "sinceras desculpas, pelo constrangimento que toda essa situação provocou". O deputado confessa ter "errado", mas pondera que está "pagando um preço muito alto" pela crise política em Brasília. Cerca de 10 mil cópias da carta serão distribuídas aos eleitores do deputado, segundo a assessoria de imprensa dele. Trechos desta carta são repetidos na mensagem de renúncia.

"A repetição da imagem onde aparece recebendo recursos de campanha não contabilizados em setembro de 2006, como se fossem atuais, devo admitir, são muito fortes. Mais forte ainda a versão dada à minha participação em oração feita pelo deputado Brunelli, ocorrida em setembro de 2009 e que não tem qualquer vinculação de causa e efeito com as imagens de 2006", afirma o deputado, nas duas cartas. "Já admiti publicamente e reafirmo que errei, e estou pagando um preço muito alto, mas tenho certeza que as investigações irão revelar a verdade dos fatos e que o processo legal e a justiça serão novamente restabelecidos", escreveu.

 

Leia a íntegra da carta de renúncia:

 

"Nas duas últimas legislaturas da Câmara Legislativa do Distrito Federal, fui eleito ao cargo de Deputado Distrital, onde exerci as importantes funções de Presidente de Comissões, Líder do Governo e Presidente da Casa.

 

Como presidente da Comissão de Orçamento defendi a redução da carga tributária, a limitação do reajuste de impostos aos índices de inflação e o reforço orçamentário para as áreas de Saúde, Educação e Segurança.

 

Como líder do governo, os diálogos com os parlamentares, e em especial com a oposição, foram a minha tônica, o que nos levou a fazer mudanças e aprimorar quase todos os projetos enviados pelo Poder Executivo.

 

Como presidente, pautei minha gestão de forma compartilhada com os demais membros da mesa. Trabalhei com austeridade e transparência. Obtivemos uma economia significativa que nos possibilitou dar reajuste a todos os servidores, implantar o plano de  carreira e manter a execução financeira de 2009 menor que no ano anterior. Foi criado o programa "A Câmara mais Perto de Você" que aproxima o Poder Legislativo do cidadão.

 

Sou autor de leis que beneficiam toda a população: a lei da Nota Legal a que institui Educação financeiras nas escolas, a que cria o programa de Engenharia e Arquitetura Pública e muitas outras.

 

A divulgação dos vídeos envolvendo vários integrantes do Poder Executivo e do Legislativo, inclusive a minha pessoa, levou a uma crise política e tem deixado perplexa a população.

 

A repetição da imagem onde apareço recebendo doação de campanha não contabilizada em setembro de 2006, como se fossem atuais, reconheço, são muito fortes, assim como é avassaladora a versão para a minha presença no vídeo da oração feita em setembro de 2009, pelo deputado Brunelli. As cenas são mostradas como se fora fato imediatamente posterior aquele mostrado nas imagens de setembro de 2006, mas aconteceram três anos depois, em contexto totalmente diverso.

 

Os vídeos repetidamente apresentados são maldosos, visam confundir o telespectador, gerar comoção, indignação e liquidar meu mandato, minha honra e meu futuro político.

 

Não menosprezo os fatos, tampouco desqualifico as imagens, apenas coloco as coisas no seu devido tempo e lugar.

 

Já admiti publicamente e reafirmo que errei ao receber doação para campanha e não contabilizar, em setembro de 2006. Estou pagando um preço alto. Tenho certeza que as investigações irão revelar a verdade dos fatos. O processo legal e a justiça serão restabelecidos.

 

Fui vítima de um modelo autofágico do Sistema Eleitoral Brasileiro no qual prevalece a hipocrisia. Os candidatos muitas vezes deixam de declarar o recebimento de recursos financeiros, para a campanha a pedido do próprio doador, que não deseja ver seu CPF ou CNPJ divulgados na internet e vinculados a um candidato ou partido.

 

Embora o ex-ministro José Dirceu tenha afirmado em recente entrevista: "Mensalão não é corrupção e sim financiamento de campanha com Caixa 2", discordo. Mensalão, atividade da qual nunca tomei parte, é corrupção, sim e financiar campanha com Caixa 2 é ilegal.

 

Desejo que a crise política no DF mobiliza o Congresso Nacional para a urgência da Reforma Polícia, com a implementação do Financiamento Público de Campanha e fiscalização mais rigorosa que coíba o abuso de poder econômico nas campanhas eleitorais.

 

Quero também que a situação de hoje seja um exemplo aos candidatos que irão concorrer às próximas eleições.

 

Não desejo a ninguém que experimente a dor e o sofrimento que minha família e eu estamos vivendo.

 

Agradeço a Deus pela dádiva da vida, e à minha família, em especial minha esposa e meus filhos pela tolerância e compreensão.

 

Agradeço aos meus eleitores, aos funcionários do gabinete, e todos os servidores da Câmara pelo apoio recebido quando do exercício da Presidência da Casa; às lideranças comunitárias; aos conselhos de pastores; aos sindicatos, federações, prefeituras e associações,;  e à população em geral.

 

Para que as prerrogativas do cargo não interfiram nas investigações e as apurações sejam feitas com isenção, renuncio ao mandato de deputado distrital.

 

Leonardo Prudente."

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