Najara Araujo/Câmara dos Deputados
Najara Araujo/Câmara dos Deputados

Deputada federal do PSL afirma que foi ameaçada por ministro do Turismo

Alê Silva diz que Marcelo Antônio está com ‘ódio mortal’ após descobrir que foi ela que passou informações sobre candidaturas laranjas do partido do presidente Jair Bolsonaro; ele nega as acusações: ‘nunca fiz nada disso’

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2019 | 20h17
Atualizado 14 de abril de 2019 | 13h37

BRASÍLIA – A deputada federal Alê Silva (PSL-MG) acusou neste sábado, 13, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, presidente da legenda em Minas Gerais, de tê-la ameaçado de morte e também de prometer acabar com sua carreira política. A parlamentar conta que soube, na última quarta-feira, 10, que ele teria afirmado a alguns parlamentares do PSL que “iria usar de toda a sua influência como ministro e dentro do próprio partido para acabar com ela”.  O ministro nega as acusações (leia mais abaixo).

Ao Estado, ela não apresentou provas das possíveis ameaças e disse que foi informada também por interlocutores que Marcelo Álvaro estaria com “ódio mortal” dela após descobrir que foi a congressista que havia passado as informações sobre candidaturas laranjas ao Ministério Público, por meio de uma associação. “O ódio dele está tão evidente que ele não me chama pelo apelido – Alê –, mas sim pelo meu nome, Alessandra. Isso foi observado por um dos que participaram da reunião”, conta a deputada. Reportagem da Folha de S.Paulo revelou neste sábado, 13, que ela prestou depoimento espontâneo à Policia Federal na última semana, o que foi confirmado pelo Estado

O Estado apurou com fontes da Polícia Federal que, no depoimento, a deputada falou sobre “ameaça a vida”, o que deixou dúbio sobre se o relato que ela diz ter ouvido era de ameaça a vida parlamentar ou a sua própria vida. Mas todas as acusações estão sendo investigadas. Não há previsão de a PF atuar na segurança de Alê Silva, que, por ser parlamentar, pode requerer proteção à Polícia Legislativa.

Fontes da PF também informam que a deputada não apresentou gravações para comprovar as ameaças. E ressaltam que ela não estava na reunião em que Álvaro Antônio teria feito as afirmações. Mas, embora a deputada não estivesse presente na conversa em que diz que o ministro a ameaçou, a PF entende que é preciso avaliar o contexto das acusações que cercam Álvaro Antônio. Se fosse um fato isolado o peso da acusação seria um, mas como o ministro está no foco de uma investigação o peso do depoimento dela é outro.

À reportagem, Alê Silva afirma que apresentou provas à PF e que não as divulgará por envolver pessoas que não podem ser expostas à mídia. A deputada não diz ter sido usada como laranja pelo atual ministro na última eleição, mas o caso dela foi enviado para o delegado que atua nessa investigação porque informações que ela prestou no depoimento podem ser complementares.

Candidatas do PSL em Minas acusam o ministro de tê-las usado como laranjas para desviar dinheiro do fundo eleitoral. Essas apurações, segundo apurou o Estado, estão bem adiantadas. Assim como o inquérito que apura o uso de laranjas pelo PSL de Pernambuco. O presidente Jair Bolsonaro já disse que aguarda a conclusão do inquérito para avaliar a demissão do ministro, o único do PSL no governo. 

‘Pior dia da minha vida’

Ao Estado, a deputada contou que um primeiro aviso já lhe havia sido dado por outro interlocutor, que viajou mais de 200 km dentro do Estado para encontrá-la pessoalmente. “Pela gravidade que ele expôs e por ter percorrido mais de 200 km para falar comigo, essa foi uma ameaça à minha vida, sim”, diz Alê Silva. Ela conversou com a reportagem por meio de WhatsApp e não quis atender ao telefone dizendo não estar bem. “O dia de hoje está sendo o pior dia da minha vida. Eu não queria que nada disso estivesse acontecendo”, afirma.

Segundo a deputada, na reunião com os parlamentares do PSL, Álvaro Antônio teria dito que divulgaria “áudios difamatórios” sobre ela. Ela diz ainda que o ministro está divulgando no grupo do partido mensagens que ela queria encaminhar para seu assessor, mas acabou repassando a outra pessoa por engano. A primeira mensagem, de 14 de março de 2019, às 14h20, diz: “Falta só um empurrãozinho... só um... e eu acho que esse empurrãozinho eu é que vou dar...”. Em seguida, às 14h21, outra mensagem: “Um pequeno peteleco...”. A deputada diz que falava com seu assessor sobre dar um “empurrão” no computador, que estava com problemas no dia. Mas, segundo Alê Silva, o ministro está usando as mensagens para acusá-la de premeditação dos ataques e das acusações. “Se a minha intenção era de atacar, por que eu iria avisar?”, questiona.

Ministro diz que afirmação da deputada não tem credibilidade

Procurado pelo Estado, o ministro Marcelo Álvaro Antônio disse que não existe credibilidade na afirmação da deputada Alê Silva de que foi ameaçada de morte por ele. “O que ela diz é que ouviu dizer que eu fiz uma ameaça. Ouvi dizer é algo sem credibilidade. Quem me conhece sabe que eu não sou um cara violento e nunca fiz nada disso”, disse.

O ministro diz que a deputada do PSL age por motivação pessoal em uma disputa por espaço dentro do diretório do partido em Minas Gerais. “O meu primeiro suplente é da cidade que é a base política dela”, disse.

Investigado em Minas Gerais por suspeita de montar esquema de candidaturas laranjas nas eleições de 2018, ele afirma inocência e diz que já apresentou à Polícia Federal e ao Ministério Público o que chama de “evidências da armação”. “Alê Silva faz parte disso”, acrescentou.

Alê Silva recebeu apoio da deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP), que pediu neste sábado a demissão do ministro do Turismo. ‘Todo meu apoio à Deputada Federal Alê Silva. E agora, Presidente? O Ministro do Turismo fica?

Coordenador da bancada do PSL em Minas pede cautela no caso 

Após acusações da deputada Alê Silva, o deputado Delegado Marcelo Freitas (PSL-MG) disse que ligou para a colega para se colocar à disposição, mas pediu cautela. “Francamente, não acredito em ameaças de morte ou coisa do gênero. Nos parece uma busca por espaços no partido, com consequências que extrapolam o razoável”, afirmou Freitas.

Relator da reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça, na Câmara, Marcelo Freitas disse que ligou hoje para a deputada após a Folha de S.Paulo publicar uma entrevista em que a congressista faz as acusações e afirma ter pedido proteção policial. Alê Silva confirmou as acusações ao Estado. “Entrei em contato para compreender o que estava acontecendo, quando fomos surpreendidos com divulgações na imprensa”, contou o deputado. “Espero que reencontremos o caminho do diálogo, única via para construir melhores alternativas para Minas e para o Brasil”, afirmou Freitas. /BÁRBARA NASCIMENTO, BRENO PIRES, IDIANA TOMAZELLI E MATHEUS LARA

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