Depois do corte de verba, FHC agradece aos militares

O presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou a cerimônia de apresentação do dez oficiais-generais, recém-promovidos, para afagar os militares que sofreram drásticos cortes em seu orçamento, que acabou levando o Exército a dispensar 44 mil recrutas, na semana passada, por falta de recursos para mantê-los na força. "A tropa tem a minha gratidão, porque sei das dificuldades pelas quais passam e sei como é difícil, em condições de escassez de meios, manter um planejamento que permita assegurar aquilo que é fundamental, que é a disciplina, a hierarquia e a continuidade do cumprimento dos objetivos planejados e do dever", disse o presidente, diante de uma platéia que esperava ouvir pelo menos um aceno de que, com a assinatura do acordo com o FMI, as coisas iam melhorar e que parte dos cerca de R$ 500 milhões que foram contingenciados seriam desbloqueados."Como dói", desabafou o presidente, ao afirmar que "tem consciência" das dificuldades que as Forças Armadas estão enfrentando, embora saliente que elas não são exceção. Fernando Henrique fez questão de destacar, no entanto, que apesar das dificuldades, foi possível avançar em algumas áreas, referindo-se, por exemplo, à instalação do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). Fernando Henrique dedicou boa parte do discurso para agradecer a postura dos militares que "souberam superar obstáculos e persistir em um trabalho", acrescentando que "o Estado brasileiro reconhece a trajetória que puderam cumprir suas forças, dando mostras de patriotismo e dedicação aos interesses maiores do País". "Isso exige esforço e colaboração de todos", comentou ele, insistindo em agradecer "o sacrifício". Em um único momento do discurso o presidente citou, de passagem, a dispensa dos recrutas. "As Forças Armadas se caracterizam por seu compromisso com os valores éticos de nossa sociedade", acentuando que "os laços que unem as famílias brasileiras vão muito além do serviço militar", já que as três forças são uma ?verdadeira síntese? do povo brasileiro. Com isso, o presidente dizia, indiretamente, que as Forças Armadas são muito mais do que os 44 mil recrutas que foram dispensados.Mais cedo, na cerimônia de entrega de espadas aos novos generais, no quartel-general, o chefe do Estado-Maior do Exército, general Marcelo Rufino dos Santos, deu um recado aos que não se importam com os cortes dos recursos dos militares e que questionam até mesmo a existência das Forças Armadas. "Equivocam-se os que pensam constituir nosso Exército uma simples instituição armada, destinada a transformar homens em soldados, para cumprimento de sua destinação constitucional", desabafou, salientando que o papel dos militares "é muito mais amplo". "Os feitos objetivos de nossa Força não se revelam por expressões matemáticas, mas antes e principalmente, pelos seus efeitos", prosseguiu o general Marcelo, queixando-se, a partir daí, das restrições orçamentárias. "As limitações impostas, dentro da realidade brasileira, oferecem oportunidade favorável à reflexão da parcela da responsabilidade que nos cabe, no esforço coletivo para superá-las", afirmou ele, acentuando que as "adversidades e sofrimentos" devem ser tomados como estímulos para o enfrentamento das dificuldades. "Só assim alcançaremos o rumo correto para resistir ao delicado momento." AmazôniaNa cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente condecorou o comandante da Marinha, Sérgio Chagastelles, que completou 50 anos de serviço militar, e reservou elogios especiais para o ministro-chefe do gabinete Militar, general Alberto Cardoso, que foi promovido ao mais alto posto da força, general-de-exército. No discurso, ao destacar a importância da Amazônia para o País, o presidente respondeu ao editorial do jornal norte-americano ?The New York Times?, que questionava a capacidade de o Brasil usar as informações do Sivam para a proteção da Amazônia, depois de informar que, em breve, com os equipamentos ali instalados e com pessoal capacitado, será realmente possível "uma vigilância integrada do espaço aéreo amazônico". Para o presidente, esta será "uma forma de demonstrarmos, ao mundo, a nossa capacidade de assegurar proteção também ao meio ambiente e à segurança de uma área que representa 52% do nosso território". Segundo Fernando Henrique, tratar a Amazônia com especial atenção não é um modismo. ?É uma forma de desenvolver, rapidamente e de maneira inteligente, um espaço geográfico que é vital para o País".

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