Depois de Wanderval, Câmara inocenta João Magno

A Câmara absolveu mais dois deputados envolvidos com o mensalão, ambos da base do governo. Agora, da lista inicial de 18 acusados, já são sete os que conseguiram se livrar da cassação.À tarde, quem salvou o pescoço foi o deputado Wanderval Santos (PL-SP), acusado pela CPI dos Correios de receber R$ 150 mil das contas do empresário Marcos Valério; à noite, foi a vez do petista João Magno (MG), que confessou ter recebido R$ 425,95 mil das contas de Valério.AusentesO baixo quorum foi fundamental para o destino dos dois parlamentares. À votação do deputado João Magno faltaram 87 dos 513 deputados. Na sessão que decidiu o destino de Wanderval ausentaram-se 69 deputados. Como são necessários 257 votos para a cassação de um mandato, o sumiço dos colegas contribuiu para a salvação.PFL e PSDB ainda tentaram uma manobra, mas o resultado foi apenas o atraso na votação. Percebendo que as ausências eram muitas, os dois partidos de oposição fizeram de tudo para adiar a sessão, mas os parlamentares da base aliada do governo garantiram 257 deputados em plenário, o que garantiu a votação.O placar e a dançaVotaram pela cassação do mandato de João Magno 201 deputados; pela absolvição, 207. Foram registradas ainda 10 abstenções, 5 votos brancos e 3 nulos.Wanderval sofreu com um placar mais apertado. Pela cassação de seu mandato foram registrados 242 votos, 15 a menos do que os 257 necessários para a declaração da perda de mandato. Votaram a favor de Wanderval 179 parlamentares. Foram registradas ainda 20 abstenções e três votos em branco.Quando o resultado foi anunciado, a deputada Ângela Guadagnin (PT-SP) dançou no plenário.BalançoLivraram-se da cassação, até agora, além de João Magno e Wanderval Santos, os deputados Professor Luizinho (PT-SP), Roberto Brant (PFL-MG), Sandro Mabel (PL-GO), Romeu Queiroz (PTB-MG) e Pedro Henry (PP-MT). Foram cassados Roberto Jefferson (PTB-RJ), José Dirceu (PT-SP) e Pedro Corrêa (PP-PE). Renunciaram ao mandato para fugir do processo Valdemar Costa Neto (PL-SP), Carlos Rodrigues (sem partido-RJ), José Borba (PMDB-PR) e Paulo Rocha (PT-PA).FamíliaJoão Magno foi à tribuna e fez um discurso longo, emocional e confuso. Durante os 44 minutos em que se defendeu, culpou os meios de comunicação que, segundo ele, julgam sem esperar a condenação, mas ao mesmo tempo afirmou que eles cumprem o seu papel de informar. Citou Ruy Barbosa, lembrou que pediu socorro ao bispo emérito de Ipatinga (MG), dom Lélis, de 88 anos, que foi à Câmara testemunhar a seu favor e contou que toda a sua família estava presente assistindo-o.O deputado disse ainda as razões que o levaram a não renunciar ao mandato: "Que moral, que autoridade terei para dar exemplo de um pai, que tem uma cabeça erguida, dentro da consciência e da essência de uma atitude de vida, para ensinar meus filhos a serem homens e mulheres independentes - tenho 1 filha e 3 filhos - , se eu não tiver a dignidade, a moral, a coragem para levar até às últimas conseqüências, explicando, enfrentando e, em muitos momentos, até sendo apedrejado? Eu disse para eles, dentro da minha casa: Filhos, fiquem serenos com o que acontecer, qualquer que seja o acontecimento vocês estão vendo diante de mim um pai".PerdãoO deputado Wanderval Santos utilizou duas estratégias para se defender. Em primeiro lugar, imitou o deputado Roberto Brant (PFL-MG), que há 15 dias atacou a opinião pública, chamando-a de "elitista, muito menor do que o povo", e se livrou da cassação, porque provocou o amor-próprio dos parlamentares. Em segundo lugar, ele atribuiu toda a culpa pelo aparecimento de seu nome na lista dos recebedores de dinheiro de Marcos Valério ao ex-deputado Carlos Rodrigues (sem partido-RJ), que renunciou ao mandato para fugir do processo de cassação. Chamou-o de "covarde" por ter fugido do processo. Disse que Rodrigues determinou a seu motorista que fosse ao Banco Rural pegar o dinheiro. Wanderval lembrou que Rodrigues pediu perdão. "Ele me ligou me pedindo perdão. Logicamente que como cristão eu deveria perdoá-lo. Mas a verdade é que quem teria que estar aqui nesta tribuna hoje para responder pelos seus atos ilícitos seria o ex-deputado Carlos Rodrigues. Mas a covardia o levou a renunciar, e a covardia não me levou a renunciar, porque estou aqui hoje enfrentando esse processo no lugar do ex-deputado Carlos Rodrigues. E falei mais: sobre o mal que ele causou a mim e também à minha família e aos meus filhos".

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