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Depois de Pasadena, o partido da base aliada

Relator de processo que isentou Dilma avalia ida para o PSD de Kassab após se aposentar no TCU

João Domingos, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2014 | 02h01

BRASÍLIA - Faz cinco anos que José Jorge venceu a última batalha no Congresso contra o PT e foi eleito ministro do Tribunal de Contas da União, no qual acaba de relatar um dos processos que mais despertaram atenção no governo desde que Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao Palácio do Planalto pela primeira vez. Agora, a quatro meses de deixar o TCU, o ex-deputado e ex-senador do antigo PFL e do DEM cogita voltar à vida partidária e, nas voltas que a política dá, por uma legenda da base aliada ao PT no governo federal.

Jorge é o autor do voto aprovado na quarta-feira pelo plenário do TCU que responsabilizou 11 diretores e ex-dirigentes da Petrobrás por prejuízos de U$ 792,3 milhões na compra da refinaria de Pasadena (EUA), em 2006, e tornou seus bens indisponíveis. Ao mesmo tempo, isentou a presidente Dilma Rousseff, na época ministra da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da estatal, de responsabilidade na aquisição, assim como os demais conselheiros.

A aposentadoria do TCU após um dos processos mais ruidosos da história recente da corte será em 18 de novembro, quando Jorge vai completar 70 anos e será obrigado a deixar o cargo. Embora diga que, ao entrar no tribunal, tenha deixado de ser político, o ministro era tratado no governo do PT como "líder da oposição" no TCU. A alcunha está prestes a ser abandonada.

A nova filiação partidária ainda não é uma certeza para Jorge, mas o ex-congressista pernambucano dá pistas. "Sou amigo do Kassab. Se voltar à política, entro no PSD", afirma, referindo-se ao ex-prefeito de São Paulo. Os dois foram colegas de partido. Hoje, Kassab preside a legenda que, como ele próprio destaca, foi a primeira a anunciar apoio à reeleição de Dilma.

Seria uma decepção para seus antigos colegas de oposição ao governo Lula? Nada disso, afirma o ex-pefelista. "Quando entrei no tribunal deixei de ser político. Se voltar, tenho direito de escolher o partido."

No Congresso, o fato de ter isentado Dilma no processo do TCU teria deixado ex-companheiros de DEM magoados - em especial o líder do partido na Câmara, Mendonça Filho, conterrâneo e aliado em Pernambuco. O ministro justifica a decisão. "O Mendoncinha magoado comigo? O TCU julga tecnicamente", diz. "Decidimos centrar a investigação na diretoria da Petrobrás. Se agora, na fase da defesa, ficar provado que houve culpa de integrantes do conselho, vamos chamá-los."

Político sem mandato. Uma das dúvidas de Jorge sobre voltar à política é a disputa por um novo mandato. "Não sei (se vou disputar mandato). Gostei demais do Senado. Tenho de ver, porque voltar à política e ficar sem mandato...", diz o ex-senador, para em seguida lembrar o ditado de um colega de bancada. "Como dizia Antonio Carlos Magalhães: 'Um político sem mandato é como uma p... sem cama.'"

Jorge foi quatro vezes deputado federal e uma vez senador antes de ser indicado para o TCU - e do jeito que gosta, derrotando um candidato apoiado pelo governo do PT, o ex-senador Leomar Quintanilha (PMDB-TO). O então presidente Lula mandou os petistas escolherem Quintanilha. Jorge teve 41 votos contra 34. "Eu tinha contabilizado 50 votos. Três não compareceram, outros seis me traíram."

O histórico de atuação contra o PT não ficou só na memória do Congresso. No armário que fica atrás de uma das mesas do gabinete, de cerca de 50 metros quadrados, o ministro exibe duas esculturas. A da esquerda é um diabinho, versão do Troféu Berzoini de Crueldade Popular, feita pelo artista pernambucano Ferreirinha. A da direita, um anjo de barro do escultor Nuca de Trucunhaém, o Mestre Nuca, morto em fevereiro.

O Troféu Berzoini dá concretute à atuação do oposicionista Jorge. Logo que assumiu o Ministério da Previdência, em 2003, Ricardo Berzoini determinou que idosos fossem aos postos do INSS para fazer o recadastramento e provar que estavam vivos. As críticas à medida levaram o governo a recuar. Mas a oposição viu ali a deixa para atacar o governo. Coube a Jorge encomendar o troféu.

Foram organizadas várias edições do Troféu Berzoini. Entre os vencedores - sempre anunciados da tribuna do Senado pelo próprio Jorge - constam Lula, os ex-ministros Dirceu e Luiz Gushiken (mortoem 2013) e o atual líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE). Como ninguém nunca apareceu para apanhar o prêmio, o troféu foi guardado sobre o armário da sala no TCU.

Gaiatice. Passados cinco anos desde que deixou o Congresso, Jorge se permite uma inconfidência a respeito da solenidade: "Você não sabe, mas o Sarney, quando era presidente do Senado, me dizia: 'Quando é que você vai anunciar o troféu? Não aceito que o faça sem que eu esteja presidindo a sessão.'"

Se o troféu era uma provocação barata, a votação da prorrogação da CPMF para financiar a saúde, em 2007, custou a Lula o mais duro golpe aplicado pelo Congresso em uma votação.

Antes, em 2005, a atuação na CPI dos Bingos deu a Jorge destaque suficiente para ser escolhido candidato a vice na chapa presidencial do tucano Geraldo Alckmin, em 2006. Apesar da derrota, o ex-senador não passou em branco. Na convenção do PFL em Brasília, em junho, Jorge atacou Lula: "Hoje temos um presidente que não trabalha, só viaja muito e ainda bebe muito, como dizem por aí".

O petista, ainda enfrentando o desgaste do escândalo do mensalão, reagiu indignado em evento no Recife, cidade natal do então senador. Sem citar nomes, Lula afirmou que a oposição e alguns de seus integrantes não tinham caráter e transmitiam ódio, inveja e preconceito.

Os embates na oposição, diz Jorge, não lhe estressaram, muito menos relatar o processo de Pasadena. Tensão mesmo, diz, viveu quando foi ministro de Minas e Energia no governo FHC durante o apagão do setor elétrico e o racionamento de energia. "No caso de Pasadena, você analisa o passado. Não havia fato novo a acontecer", compara. "No racionamento era uma batalha diária para que nada de ruim acontecesse no dia seguinte. Aquilo, sim, foi um estresse."

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