Depois de negar, diretor da Anac admite crise no setor aéreo

Um dia depois de negar a existência de crise aérea no País e surpreender os deputados em audiência na Câmara, o diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi, afirmou em depoimento no Senado que suas declarações foram mal interpretadas pela imprensa. "Pegaram na questão semântica", afirmou logo na abertura de sua explanação na sessão conjunta entre as Comissões de Fiscalização e Controle e a de Relações Exteriores.Diferente do que dissera na véspera, ele admitiu nesta quinta-feira que o setor aéreo vive "um momento de grandes dificuldades". "Temos problemas sim. E são problemas sérios. Mas temos absoluta convicção de que serão resolvidos", declarou. Em seguida, Zuanazzi advertiu para o dado de que os problemas graves só ocorreram "em 14 dias dos seis últimos meses". Nesses dias, explicou o diretor da Anac, os atrasos dos vôos superaram a média de 7% e os cancelamentos superaram a média de 1,5 a 2%.Ao encerrar sua fala inicial, Zuanazzi assumiu o papel de vítima. "Querem fazer comigo o mesmo que com São João Batista", afirmou, em referência ao santo que teve a cabeça cortada e colocada em uma bandeja.Apesar de tentar corrigir as declarações de anteontem, Zuanazzi não escapou novamente da ironia dos parlamentares. O presidente da Anac pediu licença ao presidente da audiência ontem, senador Heráclito Fortes (DEM-PI), para informar que controladores de vôo na França tinham acabado de iniciar uma paralisação. "São problemas comuns no mundo todo", observou. Tão logo terminou de informar sobre a greve francesa, Zuanazzi foi surpreendido com a declaração de Heráclito. "Então, já que o senhor acabou de informar o início da paralisação na França, peço que comunique essa comissão quando a crise lá for resolvida. Será para nós um bom parâmetro saber quanto tempo as coisas levam para ser resolvidas lá e aqui", retrucou o pefelista, deixando visivelmente constrangido o diretor da Anac e provocando risos no plenário.IroniaNão foi o único momento de ironia na sessão desta quinta. Ainda no começo da audiência, o senador Heráclito Fortes advertiu o ministro da Defesa, Waldir Pires, que não colocasse o dedo em riste ao responder as perguntas dos parlamentares. "Acabaram de me ligar dizendo aqui. O senhor coloca o dedo em riste e dá impressão, para quem vê na televisão, que se trata de uma agressão e tenho certeza que não é", disse o pefelista. Pires respondeu: "Não é o meu forte nem nunca foi. Não tem nada de ofensivo. A gente faz isso até em conversa com familiares".A advertência de Heráclito foi feita na hora em que Pires respondia a perguntas feitas pelo senador César Borges (DEM-BA). Os dois são adversários políticos e já bateram boca publicamente em novembro quando o ministro da Defesa esteve, pela primeira vez, no Senado para dar explicações sobre o início da crise aérea no País. "Sua indignação não é sincera. Se fosse, já teria resolvido a crise", disse Borges a Pires. Vendo que o clima começou a esquentar, Heráclito, que deflagrou a discussão, tratou de encerrá-la. "Sei que é da tradição baiana", anotou levando os baianos Pires e Borges ao riso.A sessão no Senado durou 5h30 e não foi interrompida nem para um lanche rápido. Os parlamentares e depoentes como Pires, Zuanazzi e o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, chegaram a responder perguntas entre goles de refrigerante e mordida em quibes, esfirras e sanduíches naturais. Os senadores também não perderam tempo e aderiram à comilança. Saito e Pires aparentavam cansaço. Somado ao depoimento da véspera, na Câmara, eles responderam a perguntas de parlamentares por mais de 12 horas. O ministro da Defesa chegou a cochilar enquanto o diretor da Anac falava.

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