Depois de enquadrar o PT, Lula espera ´alinhar´ o BC ao PAC

A substituição do diretor de Política Econômica do Banco Central, Afonso Bevilaqua, pode sinalizar uma alinhamento do BC ao Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), mas não o rompimento com o gradualismo na política monetária, dizem fontes do governo. Depois de ter enquadrado o PT para manter as metas de superávit primário e de controle da inflação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria "acertando o passo" do BC com a meta de crescimento do PIB em 5% ao ano, analisam as fontes. Interlocutores de confiança do presidente Lula recordaram que os rumores sobre a saída de Bevilaqua, anunciada na quinta-feira, vêm desde a reeleição, em outubro passado. Eles coincidem com a determinação do presidente de aumentar o investimento público em infra-estrutura. Para o comando político do governo, Bevilaqua encarnou, no Comitê de Política Monetária (Copom), o pensamento econômico contrário à aceleração do crescimento sem uma correspondente queda na relação entre a dívida pública e o PIB, ainda muito elevada apesar de ter diminuído nos últimos quatro anos. Foi para esses setores a advertência do presidente Lula ("o Brasil não pode ter medo de crescer") feita em discurso depois que o Copom, em 24 de janeiro, fez um corte tímido na taxa de juros, prevendo pressões inflacionárias futuras. A decisão de janeiro e a ata do Copom contrariaram o entendimento que Lula teve, logo depois da reeleição, com o comando da equipe econômica, disseram fontes do governo e da direção do PT. Na "renovação de contrato" com a equipe, Lula teria comprometido o presidente do BC, Henrique Meirelles, com os objetivos gerais do PAC. Teria assegurado ainda a palavra final sobre as nomeação de diretores do BC, algo que não ocorreu ao longo do primeiro mandato. Em fevereiro, ainda sob o impacto da decisão do Copom, Lula autorizou o Diretório Nacional do PT a condená-la "enfaticamente" numa resolução política sobre a conjuntura. Em linha com a avaliação positiva de Lula sobre a política macroeconômica de modo geral, o diretório do PT poupou Meirelles de críticas e não abordou as polêmicas sobre câmbio e superávit primário no texto da resolução. Paradoxo do FMI O documento do PT foi uma vitória de Lula e uma derrota do ex-ministro José Dirceu, ainda muito influente no partido e crítico frontal de Meirelles. O presidente do partido, Ricardo Berzoini, fez questão de preservar Meirelles das críticas ao Copom. "No conjunto, a política econômica produziu resultados extremamente positivos que permitem a retomada do crescimento", disse o petista na reunião do diretório. No movimento seguinte, Dirceu acusou Bevilaqua de encarnar "o conservadorismo" no BC. O governador petista de Sergipe, Marcelo Déda, acrescentou que a política monetária poderia mudar sem mudar Meirelles. Por fim, Lula indicou para a diretoria brasileira do FMI o economista Paulo Nogueira Batista Júnior, ligado ao PT e um dos maiores críticos da política monetária ao longo do primeiro mandato. Auxiliares de Meirelles tentaram dar pouca relevância ao episódio, argumentando que o cargo no FMI perdeu muito da importância estratégica que já teve. Assim mesmo, houve preocupação com a leitura que o mercado faria de mais essa "provocação" aos "ortodoxos". Mesmo entendendo a saída de Bevilaqua como um movimento de Lula para alinhar o BC à política de crescimento do segundo mandato, pessoas próximas ao diretor demissionário constataram um paradoxo político. Afonso Bevilaqua foi um dos principais formuladores da decisão de quitar antecipadamente os compromissos do Brasil com o FMI. A liquidação da dívida com o FMI transformou-se numa das principais bandeiras de Lula na reeleição.

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