Depois de cem anos, os caboclos voltam para os trilhos

Desde o sucateamento da rede ferroviária, famílias ocupam ruínas de casas da época e temem chegada do governo ou 'soldados'

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 20h43

A guerra do Contestado termina. Outras guerras ocorrem na região, como a de 1923 que envolveu correntes políticas gaúchas, as brigas de posseiros e madeireiras nos anos 1960, as disputas entre caboclos e índios nos anos 1970 e atuais conflitos de terra. A Lumber, pivô do conflito de 1912, não existe mais. Os caboclos voltaram a ocupar as terras tomadas no começo do século 20 pela companhia. As condições atuais dos descendentes dos rebeldes do Contestado força um refluxo no tempo. São homens, mulheres e crianças vivendo no mais completo abandono e estado de pobreza.

 

Desde o sucateamento da Rede Ferroviária Federal, que adquiriu as instalações da antiga São Paulo-Rio Grande do Sul, há dez anos, famílias de caboclos que viviam em casas de palha próximas às plantações de erva mate passaram a ocupar as ruínas das casas de funcionários da ferrovia e estações que serviram para o deslocamento de tropas do Exército no tempo da guerra.

 

Depois de percorrer duas horas de carro em estradas de terra do município de Porto União, em Santa Catarina, a equipe do jornal chegou à antiga estação de Cerro Pelado - nenhuma alusão ao garimpo e aos dramas de Serra Pelada, no Pará. Numa casa em ruínas, sem energia elétrica e água encanada mora Teresa Soares dos Santos, 44 anos, e seis dos nove filhos. "A gente não tem morada certa", diz a mulher, desconfiada.

 

 

Ela e outras chefes de família que vivem nas margens dos trilhos temem a chegada dos homens do governo ou da ferrovia. Teresa diz ter dificuldades em pegar no sono, com medo que soldados tirem a família à força da casa na margem esquerda. Foi por receio de deixar o local que ela não incluiu os filhos no Bolsa-Família. Nas vezes em que foi procurar a prefeitura para se inscrever no programa de assistência do governo, recuou quando perguntaram o lugar em que morava.

 

Outro motivo de desistência da bolsa foi a situação escolar dos filhos. "A piazada abandonou a escola quando eu fiquei viúva", conta. O marido, Nelson Martins, sofreu um ataque de enxame de abelhas quando atravessava um túnel da ferrovia. Hoje, a mulher recebe um salário de pensão da morte do marido e faz pequenos plantios de hortaliças na beira dos trilhos. Ela diz que as crianças voltaram para a escola. No dia em que o Estado esteve na casa, Teresa e os filhos só tinham comido uma mistura de arroz com jiló.

 

Em uma casa da margem direita vive o casal Celso Soares, 37 anos, e Ivanir, 31, e dez filhos. Ele faz serviços eventuais em propriedades da região. "A gente trabalhada de empreitada. Dá para tirar R$ 80 por semana quando é época de derrubada de pinus", relata. "Hoje mesmo fui lá, numa fazenda, atrás de uma capoeira para roçar. Disseram que na próxima semana vai ter serviço", conta. Celso diz que pretende ver os filhos formados. Priscila, nove anos, tem um projeto parecido com o de outras meninas das margens da ferrovia. Ela pretende ser professora. É o mesmo desejo expresso por Beatriz, 13.

 

Sem luz e televisão, a família passa os finais de tarde e início de noite perto do fogão à lenha. É para esquentar o corpo do frio que, em outubro, começa a dominar no Planalto Catarinense, e a água da erva mate, às vezes único alimento dos adultos e crianças. Celso fala dos tempos da guerra do Contestado. "Quando era pequeno eu ouvi muitas histórias do meu avô paterno, Vespasiano Soares. Ele esteve na guerra, lutou. Viu muita gente passar dificuldades e morrer."

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