Depois de 11 dias, MST desocupa palco de chacina

Grupo relutava em aceitar acordo pelo qual não pode voltar à Fazenda Jabuticaba, sob nenhum pretexto

Angela Lacerda, O Estadao de S.Paulo

05 de março de 2009 | 00h00

Onze dias depois do assassinato de quatro seguranças da Fazenda Jabuticaba por acampados do MST, os sem-terra deixaram ontem à tarde a propriedade, sob a supervisão do ouvidor agrário e presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, Gercino Silva Filho. O grupo relutou em aceitar o acordo fechado no dia anterior, no Recife, pelo qual eles não poderiam voltar ao local, sob nenhum pretexto.Foi preciso a intervenção da mulher do líder Jaime Amorim, Rubineusa Souza. "A situação não é tranquila, é conflituosa", disse ela aos acampados. "Se nos propusemos a sentar numa mesa de negociação é porque na situação de hoje é necessário fazer acordos."Diante do argumento dos acampados de que poderiam passar fome, sem a lavoura de feijão, milho e mandioca que começaram a plantar há cerca de um mês, Gercino se comprometeu a fornecer 100 cestas básicas mensais.Com a saída dos sem-terra, que se transferiram para uma pequena propriedade pertencente a "uma companheira", a um quilômetro do acampamento, a medição da Jabuticaba pelo Incra terá início na segunda-feira. Se a área for superior a 525 hectares, será vistoriada com fins de reforma agrária. Se menor, os sem-terra devem se comprometer a nunca mais ocupá-la (o que já fizeram nove vezes nos últimos cinco anos), pois estaria fora do padrão para o programa de reforma agrária.O assessor da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência, Ailson Silveira Machado, integrante da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, mostrou-se impressionado com as mortes, a tiros, dos quatro seguranças da fazenda. "É um caso atípico", afirmou. "Em 30 anos que trabalho com direitos humanos é a primeira vez que vejo mortes do outro lado que não seja morte de trabalhador."Ele destacou sua preocupação com a segurança dos sem-terra da região, que podem ser alvo de vingança ou retaliação depois da chacina. Ontem dois fatos que podem ter vinculação com o caso vieram à tona - o carro do sem-terra preso e indiciado por homicídio qualificado, Aluciano Ferreira dos Santos, foi incendiado logo depois do crime e um acampado da Jabuticaba, José Ivanildo Paiva, foi atingido por um tiro pouco depois da meia-noite do dia do conflito. Ele foi atendido numa clínica local, recebeu alta e vai se submeter a perícia. O autor da agressão é desconhecido.INQUÉRITO EQUILIBRADOAntes de ir ao acampamento, o ouvidor agrário conversou com o delegado de São Joaquim do Monte, Luciano Francisco Soares, e considerou o inquérito policial "equilibrado". "O delegado está fazendo uma investigação ampla, não só no que se refere aos homicídios, mas também no combate às milícias armadas."

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