Depois da queda

O pedido de licença de Renan Calheiros não foi surpresa. Surpreendente revelou-se a capacidade do Senado de resistir quase cinco meses a fazer o que deveria ser feito: atender aos reclamos das evidências, somar esforços em todos os partidos e pôr um ponto final na sangria.É alimentar um falso mito dizer que Calheiros foi antes de tudo um forte ao conseguir se manter no cargo por esse tempo todo, a despeito das pressões.Essa visão chega a ser ofensiva ao dizer de Euclides da Cunha sobre o sertanejo, porque o senador se mostrou, no caso, antes de tudo um cínico.Capacidade de resistência mesmo teve o Senado que, ao contrário do ocorrido na sessão de terça-feira última, não o pressionou. A menos que se entenda como pressão a série de apelos sem efeito prático para que se licenciasse, todos em tom reverente e a maioria soando quase como um pedido de desculpas.O limite de Calheiros já havia sido testado em julho, quando um grupo de deputados sem a sustentação de seus partidos ou representantes de legendas minúsculas pôs o primeiro pingo no primeiro i e se recusou a vê-lo na presidência do Congresso na votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias.Renan Calheiros disse que não saía e saiu. Se, na ocasião, os senadores tivessem seguido naquela toada, teriam economizado três meses de agonia.Mas, não, preferiram associar-se a ele na aposta de que o recesso parlamentar, a necessidade da imprensa de cuidar de outros assuntos, a disseminação da tese de que a sociedade estava "cansada" do assunto e a manobra de reduzir tudo a uma briga entre governo e oposição que estaria, na verdade, querendo atingir o presidente Lula, cuidariam de esvaziar o caso.O Senado deixou passar todas as oportunidades de impor um freio às manobras protelatórias e culminou sua leniência dando-lhe a absolvição no primeiro processo, numa sessão secreta em que até ditos defensores da cassação fizeram discursos de patética solidariedade às agruras do colega.O "colega", claro, sentiu que tinha espaço para se expandir e que o terreno daria sustentação a passos mais firmes. Aí errou e só por causa de seus exageros no erro foi que Renan Calheiros caiu.Sim, caiu. Não há a menor condição para sua volta à presidência sem a retomada da crise. A licença de 45 dias acaba no início de dezembro quando, então, estará no auge a tramitação e as negociações pela aprovação da CPMF. Se pudesse voltar não precisaria ter saído.Bem, nesse meio tempo deverão ser concluídos os relatórios das outras quatro representações e talvez votados no plenário alguns ou todos eles.Aí, nesse "meio tempo" é que reside o risco. O Senado é useiro e vezeiro em relevar os fatos em nome dos bons tratos de senador para senador. Exemplo mais evidente foi a recepção de luxo reservada a Fernando Collor de Mello, que pôde, mediante tímidas contestações, acusar o Senado de ter roubado levianamente o seu mandato e, ainda assim, receber saudações como se estivesse coberto de razão ao reclamar da injustiça.Houve também ocasiões em que o colegiado deixou de lado razões fortes para punir e preferiu, por benevolência, salvar mandatos de parlamentares que já consideravam suficientemente punidos pela desmoralização pública e perda do antigo poder.Calheiros usará o tempo livre agora para convencer os companheiros de que já recebeu penalidades à altura de suas faltas e, portanto, não há razão para o Senado lhe tirar por mais de dez anos o direito de concorrer a eleições.Tendo devolvido à Casa a paz, reivindicará a clemência do restante de seu mandato de oito anos, naturalmente sob a promessa de cumpri-lo na mais absoluta discrição e comedimento.Mestre na confecção do invólucro de cordeiro quando quer, Calheiros já conseguiu convencer o País de que rompeu com Fernando Collor por razões altivas; já conseguiu que Fernando Henrique Cardoso lhe desse o cargo de ministro da Justiça; já conseguiu maquiar-se o pacifista da campanha do desarmamento.Já conseguiu levar o PSDB a pisotear a memória de Mário Covas, mantendo com Renan Calheiros relações mais que cordiais depois de ele ter tentado anarquizar com a reputação do então governador de São Paulo; já conseguiu se eleger duas vezes presidente do Senado; já conseguiu ser absolvido contra o clamor da opinião pública e a força das evidências.Para quem já conseguiu enganar a tantos por tanto tempo, não é difícil enganar mais alguns (41) o tempo todo.Como dantesO fim das sessões secretas no Senado foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça, mas ainda não foi a exame do plenário.O fim do voto secreto no Congresso está parado em duas emendas constitucionais com o mesmo teor (voto aberto para tudo) - uma na Câmara, outra no Senado.Se não andar mais depressa a carruagem, Renan Calheiros termina sendo julgado de novo em sessão secreta, o que levará o Senado ao ridículo.

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