Depois da briga com Bolsonaro, Witzel sai do grupo

Para o presidente, o afastamento judicial, por 180 dias, que tende a se tornar permanente com o impeachment do ex-aliado, é mais uma boa notícia

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2020 | 14h22

Efêmero como um tuíte, Wilson Witzel caiu  sem protestos de ninguém a não ser dele próprio. A solidão da queda contrastou com a ascensão vertiginosa, nos braços do eleitorado, no fim da campanha eleitoral de 2018. Foi quando o desconhecido ex-juiz se elegeu governador do Rio, na onda de direita que se espalhou sobre os escombros do sistema político implodido pela Lava Jato, pelo impeachment de Dilma Rousseff  e pelas Jornadas de Junho de 2013 e sua divisa: "sem partido". Witzel era quase isso – o PSC que o elegeu é irrelevante politicamente. Chegou ao poder agarrado aos Bolsonaro, mas passou a acreditar na própria lenda e decidiu enfrentá-los. Agora, só um milagre ou um cataclisma o devolverão ao Palácio Guanabara.

O afastamento de Witzel dá a Bolsonaro & filhos a chance de colocar o Rio de Janeiro no embornal da Expedição Brasília 2022, que pretende reeleger o seu patriarca. Ainda mais desconhecido  que o titular, o governador em exercício, Cláudio Castro, assume um Estado quebrado, dependente da União para prorrogar o Regime de Recuperação Fiscal. Nesse cenário, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) conversa com o novato, de olho compridíssimo na investigação das "rachadinhas"  (que o envolve), à beira da denúncia. No fim do ano, será escolhido, pelo mandatário, o novo chefe da Procuradoria-Geral de Justiça, para o lugar de Eduardo Gussem. Um Ministério Público amigo seria, para o ex-patrão de Fabrício Queiroz, um sonho de chocolate.

Em sua perene paranoia, o presidente e seus filhos  parlamentares debitam ao governador afastado – sem apresentar provas –  reveses na área jurídica e policial do Rio. Como exemplo, destaca-se a denúncia – depois desmentida – de que um dos assassinos de Marielle Franco (PSOL) e de Anderson Gomes teria se dirigido à casa de Bolsonaro no dia do crime. Mesmo a investigação das "rachadinhas" conduzida pelo MP , órgão legalmente independente do Executivo, é vista como parte da perseguição supostamente movida por adversários contra o presidente da República. Não há, no entanto, nenhum indício de que Witzel tenha tentado influir nessas apurações. Nem contra, quando ainda era amigo do Planalto, nem a favor, depois do rompimento.

Um dos legados que o mandatário afastado deixou é uma coleção de episódios assustadores e/ou pitorescos.  Vão da pregação do extermínio de suspeitos com "tiro na cabecinha" , como disse ao Estadão, à paixão por símbolos, como uma (até então não prevista no protocolo) faixa que mandou fazer para a posse, colocada na foto oficial por um truque de computador. Outra marca de Witzel foi o governo atrapalhado, marcado pela exaltação da confronto armado com criminosos  e por uma relação conflituosa com a Assembleia – um risco para um governo sem base no Legislativo

Houve ainda a repetição da ambição de outros governadores do Rio, com o lançamento precoce de sua pré-candidatura à Presidência, que levou ao rompimento com Bolsonaro. O naufrágio em meio a um complexo escândalo de corrupção na saúde, cheio de elementos que fizeram a fama da Lava Jato, como delação premiada e dinheiro vivo –R$ 8,5 milhoes – atribuído a um ex-secretário, fecharam o quadro.

Para o presidente Jair Bolsonaro, o afastamento judicial, por 180 dias, que tende a se tornar permanente com o impeachment de Witzel, é mais uma boa notícia. Além de abrir caminho para a aproximação com o novo governador, livra-o de um adversário e ex-aliado incômodo. Ele poderia disputar algum espaço na extrema direita e nas redes sociais, por suas semelhanças com o chefe do Planalto. Foi com o papel de extremista do conservadorismo que pregava bala & vala para a bandidagem, além de  combate à corrupção, que o governador chegou ao poder. Aparentemente, não entendeu que era Bolsonaro o beneficiário direto desse discurso – WW foi  basicamente um carona da glória do capitão. Tentou construir uma candidatura difícil a presidente, atolou-se em um governo acidental e sem projeto – e pareceu regredir ao estágio de moda de internet já superado. Agora luta, sozinho e sem muitas chances, por seu mandato.

O máximo que ouviu foi ressalvas de juristas quanto à decisão inicial de afastamento, por ter sido monocrática, do ministro Benedito Gonçalves. Com a validação da suspensão pela Corte Especial do STJ,  Witzel saiu do grupo.

Wilson Tosta

Wilson Tosta

Chefe de Reportagem da Sucursal do Rio de Janeiro.

Graduado em Jornalismo pela UFRJ em 1984, sou mestre em História Comparada pela mesma universidade e trabalho no Estado desde 1998. Acompanhei profissionalmente a política brasileira a partir da primeira eleição presidencial pós-redemocratização, em 1989 – e ainda hoje me surpreendo diariamente.

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