Depoimentos

"Havia um decreto do presidente da República que proibia terminantemente reunião da UNE em qualquer local, em qualquer Estado. O decreto era assinado também pelo ministro Armando Falcão (Justiça). Naquele dia, por volta de 10 horas da manhã, o Erasmo (Erasmo Dias, secretário de Segurança) me comunicou sobre uma reunião que parecia ser da UNE dentro da PUC. Pedi a ele que me mantivesse informado pelo rádio interno do governo. Em face do decreto eu tinha que tomar uma atitude. Às 11, Erasmo avisou que os estudantes haviam estendido uma faixa anunciando a reunião da UNE. Minha instrução foi clara e firme: ?Vamos respeitar o campus da PUC.? Decidi assim, embora houvesse a possibilidade de intervenção no Estado. Eu estava ciente disso. Por volta de 6 da tarde, os estudantes se retiraram da PUC e foram para o Tuca. Dei orientação: ?O Tuca é da PUC, não intervenham.? A tropa estava nas ruas desde cedo. Às 6 e meia, os estudantes deixaram o teatro e foram enfrentar a polícia na rua. Atiraram pedras. O Erasmo me ligou: ?E agora, o que eu faço?? Quem deu a ordem para intervir foi eu. Mandei impedir baderna de estudante na rua. Os policiais tiveram que jogar bombas de gás. Os estudantes invadiram e se refugiaram na PUC. Uma versão é que a reitora (Nadir Kfouri), segundo o Tuma (senador Romeu Tuma, à época diretor-geral do Dops), pediu à polícia que protegesse o patrimônio da PUC. A outra versão é que os estudantes correram para o campus e a polícia foi atrás. Eu infringi o decreto presidencial das 10 horas até o início da noite. A ação policial não foi ato do Erasmo. Essa responsabilidade eu assumo. Eu tinha que exercer a autoridade de governador. Desrespeitei o decreto federal até um determinado ponto que a minha consciência indicou. Não havia bomba incendiária. Era lacrimogêneo. Umas moças tentaram pegar e jogar de volta nos policiais. Acabaram se queimando. Eu não tinha e não tenho ânimo contra a universidade. Meses antes da operação, o cardeal Arns (Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo) me procurou e disse que a PUC atravessava gravíssima crise financeira. Autorizei ajuda substancial, em forma de doação. Não me arrependo de nada. Com decreto ou sem decreto, faria tudo de novo. Se fosse governador, novamente eu repetiria tudo, exatamente como fiz."Paulo Egydio Martins, 79 anos, então governador de São Paulo"Uma violência da qual nunca me esquecerei. Uma truculência contra os meus alunos, saindo presos, queimados. Foi uma invasão estúpida. Há depredação que ninguém paga, que não têm reparação, a da liberdade, do direito." Nadir Gouvêa Kfouri, 93 anos, então reitora da PUC"Eram centenas os soldados. Havia muita gente de fora da PUC no campus. Dezenas dos que assistiam ao ato se transformaram em policiais. Começaram a gritar e a bater. Eram infiltrados. Bombas de gás e de efeito moral estouravam. Pânico e correria. A ocupação foi premeditada. Eles sabiam quem queriam prender. No momento culminante da invasão, o estacionamento ficou lotado de ?prisioneiros de guerra?, agachados e em silêncio, como os vietcongues capturados pelos americanos no Vietnã. Ouvi de um policial que quatro ou cinco meninas estavam muito feridas. Fui até lá, na lateral do Tuca. Jaziam no chão, queimadas. O cheiro era ruim, uma estava desmaiada."Padre João Edênio, 71 anos, era vice-reitor comunitário da PUC"Os invasores pareciam drogados, descontrolados, olhos vidrados. Jogaram os arquivos para o ar, entortaram máquinas de escrever. Os mais excitados eram jovens em trajes civis. Eles gritavam, xingavam, nos chamavam de comunistas. Uma brutalidade medieval. Apanhei porque contestei. Quando agrediam os alunos, eu intervim: ?Mas os alunos não estão reagindo, não batam.? Me cobriram de tapas na cara e bastonadas no braço que ficou adormecido. Moças queimadas! Até as folhas dos coqueiros lá no alto ficaram esturricadas. Disseram que haviam usado gás napalm, que os americanos lançaram no Vietnã. Selvageria, noite de cão."Professor Paulo Edgar Resende, 74 anos, na época diretor da Faculdade de Ciências Sociais"Bomba incendiária? Pelos meus netos e filhos eu afirmo que não tinha. Era bomba de gás. Aquilo só faz chorar. Havia uns 500 ou 600 estudantes, massa de manobra dos pernósticos e maquiavélicos leninistas e marxistas. O local era acanhado. Tinha muita mulher e mulher não tem jeito para correr, tem perna presa. Queriam reabrir a UNE em ato público, uma desobediência à norma vigente, desacato ao princípio da autoridade. Era ilegal, eu não podia permitir. Não se pode afrontar o poder constituído. Eu era responsável pela ordem pública. O material que achamos na PUC era de alto teor subversivo. Eles rodavam panfletos vermelhosinhos, coisa de Libelu (Liberdade e Luta). Não sei quem jogou a primeira bomba, foi aquela desgraça. Sabe como começa, não sabe como termina. Só tinha mulher. Queimaram porque usavam calcinha e sutiã de náilon. Uma sentou em cima da bomba de lacrimogêneo. Sentar numa caixa de fósforos também queima. Não cometi crime, nem excessos. A operação seguiu os métodos recomendáveis. Agi no estrito cumprimento do dever."Coronel Antônio Erasmo Dias, 83 anos, secretário da Segurança Pública de São Paulo, comandante da ação militar na PUC"Lá embaixo, as bombas estouravam. A invasão se deu pelo prédio velho, pela frente e pelas ruas laterais. Os alunos iam saindo de mãos dadas, humilhados. Ação do arbítrio, fascista. Exposição pública da prepotência para espezinhar."Professor Hermínio Alberto Marques Porto, 81 anos, então diretor da Faculdade de Direito da PUC"Pretendiam comprometer a universidade na pessoa da sua reitora e do vice-reitor como provocadores de ação subversiva. Ao invés de apurarem abusos, violências e lesões, o que se pretendia era estabelecer a responsabilidade da reitoria por crime contra a segurança nacional. Queriam travestir as vítimas em réus. Predominava toda uma mentalidade repressora."Miguel Reale Júnior, advogado da reitoria da PUC na época

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