Depoimento reforça suspeitas contra Jorge Murad

O depoimento do controlador da Usimar Componentes Automotivos, projeto que recebeu recursos da extinta Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e não saiu do papel, Teodoro Hübner Filho, reforçou a tese de participação do secretário de Ciência e Tecnologia do Maranhão, Jorge Murad, na aprovação do projeto. "A participação do Jorge Murad já pode se ter como bastante clara", afirmou o procurador do Paraná, Nazareno Wolff. Hübner depôs durante dez horas. Segundo o procurador do Tocantins, Mário Lúcio de Avelar, um "dado importante" passado por Hübner é de que a sede da Usimar funcionava no mesmo prédio da Lunus, empresa de Murad e de sua mulher, a ex-governadora do Maranhão, Roseana Sarney. "O aluguel foi feito pelo sr. Cabral (Severino Francisco Cabral), que é o gestor da empresa Lunus", disse Avelar. Mas acentuou que "não há nenhuma acusação formal contra o senhor Jorge Murad nem contra a senhora Roseana Sarney". "O que há são atos de investigação", disse, durante entrevista coletiva no início da noite. À tarde, Avelar havia dito que outro detalhe chamara sua atenção. "Há participação de terceiras pessoas que se apresentavam como diretores executivos do projeto e eram ligadas ao governo do Maranhão", afirmou. Ele disse que tem os nomes dessas pessoas, e que elas serão investigadas. "Há uma série de fatos que vem evidenciar a participação do senhor Jorge Murad na aprovação desse projeto e há indícios de que havia também controle financeiro desse projeto", afirmou. Pelas investigações, pelo menos 40% dos R$ 44 milhões que já foram liberados para o projeto Usimar foram desviados. "Segundo o senhor Teodoro, não é do conhecimento da Usimar a destinação dos recursos", disse Avelar. Mesmo sendo dono do projeto, Hübner alegou que a movimentação financeira estaria entregue ao controle de outras pessoas, como seu funcionário Valmor Felipetto. que também depôs. "Ele diz que se foi feito (desvio) foi por obra exclusiva do senhor Teodoro Hübner", disse Nazareno Wolff. As investigações indicam que 10% do valor desviado ao projeto teria sido usado para pagamento de propinas, enquanto 30% ia para outras contas, inclusive no exterior. Duas empresas cariocas - Yahweh Nissi e Condor Factoring - seriam as responsáveis pelas remessas ao exterior. "É possível que seja comissão destinada a caixinha de campanha", opinou Wolff. Segundo os procuradores, somente com a quebra do sigilo bancário dessas empresas será possível avançar sobre isso. O procurador do Tocantins, Mário Lúcio de Avelar, reafirmou que todos os participantes da reunião do Conselho Deliberativo da Sudam que aprovou o projeto Usimar sabiam que havia "indícios fortes de fraude". "Não obstante as advertências, eles atuaram no sentido de que fosse aprovado", disse. Mas, segundo ele, somente as investigações vão delimitar a extensão da participação de cada um. "Todos os governadores da Amazônia Legal, de uma forma ou de outra, intervinham na aprovação dos projetos", afirmou. "É preciso saber se foram aprovados de forma lícita ou ilícita." Além de Felipetto, hoje ainda seria ouvido Amauri Cruz dos Santos, que também foi acusado por Hübner Filho de montar o esquema fraudulento para desviar dinheiro da Sudam. Por esse esquema, o capital da WHB do Brasil, empresa de fachada que faria parte da holding ML Participações, seria constituído por direitos de créditos de uma ação judicial que tramita no Paraná, comprados por Hübner. Ele teria pago R$ 3 milhões pelos direitos, sendo contabilizado ?crédito líquido e certo? de R$ 660 milhões. Outros R$ 102 milhões de patrimônio da Usimar se resumiam a um contrato de opção de compra feito entre a Usimar e a empresa gestora dela mesma, a ML Participações. Acrescidos a outros R$ 100 milhões do patrimônio da New Hübner, outra empresa da holding, instalada em Curitiba, o capital chegava a R$ 862 milhões, valor que suportaria a participação de Teodoro Hübner Filho no projeto da Usimar, visto que ele precisaria dar uma contrapartida de R$ 690 milhões à verba liberada pelo órgão estatal. Hübner Filho alegou ter sido vítima de "estelionatários" que lhe propuseram essa engenharia. De acordo com o procurador Mário Lúcio Avelar, esse era o "modelo de fraudes" adotado na Sudam, a partir de 1996. Segundo ele, o Banco da Amazônia fazia o aporte de recursos que eram usados para pagamento de propinas e para engordar o capital de diversas empresas, uma repassando para a outra, fechando um círculo que comprovaria a capacidade financeira. "Não tem nenhum projeto correto, nem a Nova Holanda, que aparentemente parece ser produtiva, com vários empregados", disse. "Todos seguem essa sistemática."

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