Dida Sampaio/ Estadão
Dida Sampaio/ Estadão

Depoimento de Pazuello à CPI preocupa Planalto e tropa de choque do governo

Temor é que ex-ministro da Saúde cause novos desgastes a Bolsonaro

Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - O depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, nesta quarta-feira, 19, preocupa o Palácio do Planalto e tem potencial para desgastar ainda mais o presidente Jair Bolsonaro na CPI da Covid. Os senadores pretendem questionar o general sobre o atraso na aquisição de vacinas, a defesa da cloroquina, o colapso em Manaus, o estímulo a aglomerações e até sobre a existência de um esquema de corrupção no ministério. Quando deixou a pasta, em março, Pazuello disse que políticos estavam insatisfeitos com ele por não terem recebido “pixulé”.

"Vamos abordar esses aspectos todos porque com Pazuello vêm a questão das vacinas, a maneira como o governo as recusou, a defesa da imunidade de rebanho e o incentivo à aglomeração. Tem tudo isso”, afirmou o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI, ao Estadão.

Advogados do general têm receio de que senadores procurem cansá-lo com uma artilharia de perguntas para fazer com que ele se atrapalhe. “A estratégia mais utilizada por interrogadores em casos semelhantes é tentar cansar o depoente para que a mente falhe e o depoente se confunda, cometa erros. Ciente disso, o descanso da mente é sempre o melhor antídoto", escreveu Zoser Hardman, advogado de Pazuello, que recomendou a ele horas de repouso absoluto, nesta terça-feira, 18.

O ex-ministro conseguiu um aval do Supremo Tribunal Federal (STF) para ficar em silêncio diante de perguntas que possam incriminá-lo. Aliados do governo garantem que a medida é para evitar o que classificam como "abuso de autoridade" da cúpula do CPI. Argumentam, no entanto, que o general pretende responder todas as perguntas feitas pelos senadores. “Ele deve falar abertamente e com franqueza sobre todos os fatos que forem perguntados”, afirmou o senador Marcos Rogério (DEM-RO), integrante da CPI e  vice-líder do governo.

Conhecida como "Capitã Cloroquina", a médica Mayra Pinheiro, secretária de Gestão e Trabalho do Ministério da Saúde, também pediu ao Supremo autorização para ficar em silêncio na CPI, mas não conseguiu. Mayra vai depor nesta quinta-feira, 20. A secretária é apontada como responsável pelo aplicativo Tratecov, que estimula o tratamento da covid com medicamentos sem comprovação científica contra a doença, como cloroquina e ivermectina.

“O desejo da comissão não é encalacrar os depoentes nem embaralhá-los. A gente vai perguntar sobre fatos, sobre terceiros. A expectativa é que tenhamos depoimentos colaborativos”, disse Renan.

Além de Mayra, outro subordinado de Pazuello que teve a convocação aprovada pela CPI foi o coronel Elcio Franco, ex-secretário executivo da Saúde. Franco era responsável por conduzir o diálogo para a compra de vacinas contra a doença. A data do depoimento do ex-secretário ao Senado ainda não foi definida.

O Planalto mobilizou a Advocacia Geral da União (AGU) para acompanhar Pazuello. Foi a AGU que conseguiu habeas corpus no Supremo,  dando ao general o direito de ficar calado. A base do governo também tentou fazer com que Pazuello fosse ouvido por videoconferência, mas não obteve sucesso. O pedido foi negado pelo presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM).

Pazuello iria falar à CPI na primeira semana de maio. Seu depoimento foi adiado para esta quarta-feira porque ele alegou que precisava ficar em quarentena por ter se reunido com duas pessoas infectadas por covid-19. No último dia 6, porém, quarenta e oito horas após ter dado essa justificativa à comissão, Pazuello se encontrou com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni (DEM), no Hotel de Trânsito de Oficiais, onde mora. O encontro foi revelado pelo Estadão.

Na tentativa de blindar o general – que esteve no centro da crise da falta de oxigênio em Manaus – e também desviar o foco da oposição, a tropa de choque de Bolsonaro na CPI pretende reforçar a pressão para que seja investigado o destino da verba enviada a governadores e prefeitos. “É preciso chegar onde chegou o dinheiro (enviado para o combate ao coronavírus) e saber o que foi feito com ele”, argumentou Marcos Rogério. 

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