Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Depoimento de Odebrecht agrava situação de Padilha

Após empreiteiro afirmar que chefe da Casa Civil negociou repasse em 2014, incerteza sobre permanência do ministro no governo aumenta; Temer busca apoio em Mariz

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

03 Março 2017 | 05h00

BRASÍLIA - O depoimento de Marcelo Odebrecht ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) envolvendo Eliseu Padilha em tratativas para repasse de recursos para a campanha eleitoral de 2014 complicou ainda mais a situação do ministro-chefe da Casa Civil, que está de licença médica.

A permanência do peemedebista no governo é considerada incerta, apesar de assessores afirmarem que o ministro volta ao cargo na segunda semana de março. Padilha já enfrentava desgaste após o depoimento espontâneo do amigo e ex-assessor especial do presidente Michel Temer, o advogado José Yunes, ao Ministério Público Federal. O advogado afirmou ter servido de “mula involuntária” do ministro ao receber, em 2014, um “pacote” do lobista Lúcio Funaro, investigado pela Operação Lava Jato.

Na segunda-feira, 27, Padilha foi submetido, em Porto Alegre, a uma operação para retirada da próstata. A pressão no Planalto pela saída do chefe da Casa Civil aumentou e o nome do atual presidente da Petrobrás, Pedro Parente, passou a ser cogitado para o cargo. Ele ocupou o posto no governo Fernando Henrique Cardoso. 

No governo Temer, Padilha é o fiador da reforma da Previdência, uma das mais importantes bandeiras do Planalto, e tem papel importante na articulação política com o Congresso. 

Sua ausência agravou o isolamento do presidente, que já perdeu auxiliares próximos como o ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima e o próprio Yunes, além do atual líder do governo no Congresso, Romero Jucá (PMDB-RR) – que era ministro do Planejamento e deixou o cargo em meio às investigações da Lava Jato. Além disso, o ministro Moreira Franco, da Secretaria-Geral da Presidência, é outro amigo e auxiliar citado na operação. “Perder Padilha seria mais um duro golpe”, comentou um interlocutor do presidente.

Na busca por novos conselheiros, Temer embarcou nesta quinta-feira, 2, para São Paulo, onde se reuniu com o amigo e advogado criminalista Antonio Claudio Mariz de Oliveira. O presidente vai insistir com Mariz para que aceite assumir um posto dentro do Palácio do Planalto para ajudá-lo na condução política do governo.

Temer terá mais uma baixa na sua assessoria direta na semana que vem. Rodrigo Rocha Loures, outro amigo e assessor que o acompanha há anos, assume uma vaga na Câmara dos Deputados com a saída do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), nomeado novo ministro da Justiça. Mariz, então, poderia fazer o papel de conselheiro do presidente.

Processo. Após o depoimento de Marcelo Odebrecht, Temer e seus advogados ainda estudam qual estratégia seguirão para enfrentar as novas fases do processo que tramita no TSE. Nenhuma hipótese de ação está descartada e a ideia inicial continua sendo a de protelar ao máximo o processo, inclusive com a possibilidade de apresentação de recursos de toda a ordem, e até mesmo pedido de anulação dos depoimentos. 

O argumento que foi levantado no Planalto é que o depoimento colhido de Marcelo Odebrecht foi a partir de uma questão ilegítima: o vazamento de uma delação que está sob segredo de Justiça. Mas este caminho ainda não está decidido. 

Nesta quinta-feira, o presidente foi submetido a mais um constrangimento. O ex-presidente da Câmara e deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que está preso em Curitiba, formulou 19 perguntas a serem respondidas por Temer como testemunha de defesa na ação penal na Justiça do Distrito Federal que investiga a liberação de recursos do FI-FGTS por meio de pagamento de propina. Temer pretende respondê-las. 

Em meio às turbulências, o presidente tenta estabelecer estratégias que impeçam que questões políticas interfiram na agenda econômica que ele se esforça para manter em pauta. 

Nesta sexta-feira, 3, em São Paulo, além de conversar com Mariz, Temer pretende se reunir com empresários. O peemedebista considera a agenda econômica o verdadeiro ponto positivo de seu governo. Por isso, todo esforço é para garantir no Congresso a aprovação de matérias importantes como a reforma da Previdência – conduzida exatamente por Eliseu Padilha, agora combalido.

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