Depoimento de Gentil Ruy é contraditório e evasivo

O cunhado do governador José Ignacio Ferreira e ex-secretário de Governo do Espírito Santo Gentil Ruy prestou depoimento hoje à tarde no Ministério Público Estadual e negou ter responsabilidade no desaparecimento dos R$ 4,3 milhões dos cofres públicos. Ele foi ouvido durante mais de três horas e suas respostas foram consideradas "mentirosas", "contraditórias" e "evasivas" pelos promotores.Ele admitiu ter assinado a carta (supostamente enviada ao governador, em que ele assume a responsabilidade por todas as transferências de dinheiro público para as contas do empresário Raimundo Benedito de Souza Filho, o Bené), mas não quis responder se a carta é de sua autoria ou se ele foi pressionado pelo governador para assinar o documento.Para o MP, o depoimento de Ruy complicou ainda mais a situação do ex-secretário porque ele "claramente" tentou fugir das respostas e "falsear a verdade". Por causa disso, os promotores pedem amanhã a prorrogação da prisão do ex-secretário e já marcaram um outro depoimento para a próxima segunda-feira. "Com a prisão, queremos evitar que ele se encontre com os outros membros da quadrilha ou que ameace provas ou testemunhas. A fuga dele e dos outros envolvidos só mostra que temos razão em insistir na prisão", disse o promotor Fernando Ramos, um dos responsáveis pelo depoimento.O cunhado do governador e irmão da primeira-dama é alvo de seis inquéritos. Ele foi preso na tarde de terça-feira no seu sítio no interior do Estado. Foragido, ele foi localizado pela polícia após denúncia anônima. Ruy deverá ficar preso até sábado, quando termina o prazo da prisão temporária decretada pela Justiça. Hoje, o Tribunal de Justiça recusou sete pedidos de habeas-corpus do caso, entre eles o de Ruy (único a ser capturado até agora).De acordo com as denúncias, oito pessoas estão envolvidas no roubo dos R$ 4,3 milhões. O dinheiro desapareceu durante uma suposta doação feita pelo governo estadual a um projeto ambientalista da Fundação Augusto Ruschi. Ele foi depositado em uma conta da Coopeftes, uma cooperativa de crédito privada, para ser usado pela fundação, mas acabou sendo transferido para três contas particulares de Raimundo Benedito de Souza Filho, o Bené, amigo pessoal de Ruy e envolvido em outros inquéritos.O ex-secretário disse que apenas "sugeriu" que o dinheiro fosse transferido porque queria incentivar o sistema de cooperativas e que não sabia que o dinheiro seria destinado à fundação. Além de Bené e Ruy, estão na lista quatro pessoas ligadas à Fundação Augusto Ruschi (Dilma Ruschi, Augusto Ruschi Filho, Flávio Quintanilha e Aluízio Sá dos Santos) e três funcionários (Gabriel dos Anjos, Paulo Sérgio Torres da Silva e Marcelo Gabriel de Almeida) da Coopeftes.Hoje, a Assembléia Legislativa escolheu os 16 deputados que formarão a comissão especial que terá 10 dias para analisar o pedido de impeachment do governador. Houve tumulto e discussão entre deputados. Três deputados do PFL (Benedito Enéas, José Ramos e Luiz Pereira) deixaram o partido afirmando que havia um acordo governista para escolher apenas os deputados que fossem contrários ao impeachment. Por causa disso, a comissão ainda terá que ser aprovada pela procuradoria-geral da Assembléia. Os trabalhos da comissão deverão começar apenas na segunda-feira. Se a comissão especial aprovar o pedido, o impeachment será votado pelos deputados.ConfortoO carro usado pela família de Gentil Ruy, ex-secretário de governo e cunhado do governador do Espírito Santo, José Ignácio Ferreira, nas visitas que faz diariamente ao Quartel do Comando da Polícia Militar, onde ele está preso desde terça-feira, foi alugado pela Secretaria de Governo. O uso do veículo oficial, um Gol branco com placas MRM 9232, foi descoberto pela rádio CBN de Vitória. A informação foi confirmada pela gerente da Rede Brasil Locadora de Veículos, Valeska Ramos. Segundo ela, o Gol foi alugado pela secretaria para uso oficial. A assessoria de imprensa do governo, que alega não ter conhecimento sobre o aluguel do carro, promete investigar.Ruy foi preso na terça-feira em seu sítio no interior do Estado do Espírito Santo após denúncia anônima. Ele e mais oito pessoas são acusadas do desaparecimento de R$ 4,3 milhões. O cunhado do governador teria organizado o roubo do dinheiro público.A prisão de Ruy tem sido alvo de acusações de irregularidades.Ele foi levado ao Quartel da PM e colocado em um quarto com banheiro, cama, armário e ventilados. Desde a noite de terça-feira, ele tem recebido visitas diariamente, mesmo fora do horário previsto no quartel. O próprio comandante da PM, João Carlos Batista, chegou a confirmar que Ruy recebeu pessoas em sua cela fora do horário de visitas.Hoje, ele foi levado ao Ministério Público para prestar depoimento.Ele não foi algemado, sua mulher participou do depoimento e ele ainda chegou à sala dos promotores usando um telefone celular. "E só desligou porque eu o adverti", disse o promotor Fernando Ramos. Ontem, os presos reclamaram e enviaram um bilhete aos jornalistas reclamando das supostas mordomias do ex-secretário.

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