Depoimento: ‘Acusador de nazista estava no fundo da sala’

Repórter especial do ‘Estadão’ relata participação em único processo existente contra militares brasileiros por crimes durante o regime militar

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 05h00

Marina Finiti, presidente da Corte de Assise de Roma, o tribunal italiano reservado para julgar os crimes mais graves, apareceu na tela e perguntou: “Mi sente (Está me ouvindo)?”. Eram 10h40. Estava em casa e em poucos minutos ia começar a audiência da Justiça italiana para tomar o meu depoimento no único processo existente contra militares brasileiros por crimes durante o regime militar. O caso na Itália tem como réus os responsáveis pela Operação Condor, a ação dos serviços secretos militares da América do Sul, nos anos 1970, responsável pelo sequestro, tortura e morte de opositores políticos das ditaduras da região. 

A própria juíza teve de ajeitar a tela por meio da qual eu veria a sala de audiência e as partes do processo poderiam me ver. É que o tribunal estava funcionando com um mínimo de pessoas, em razão da covid-19. Tive de ficar isolado em um cômodo de casa, sem contato com ninguém durante a audiência. Prestei o juramento de dizer a verdade, e a palavra foi passada ao procurador Ermínio Amélio, que usava três máscaras no rosto – uma sobre a outra – para se proteger do coronavírus.

Não é todo dia que um jornalista é chamado para depor em razão do seu trabalho. E o que me havia levado à sessão do tribunal de Roma era a entrevista feita em 2007 com o general Agnaldo Del Nero, publicada no Estadão, em que ele, ex-chefe da Seção de Informações do Centro de Informações do Exército (CIE), admitia a participação de militares brasileiros na Operação Condor, prendendo e entregando argentinos ao Exército do país vizinho. O problema é que dois deles eram ítalo-argentinos e a Justiça italiana decidiu processar os autores do sequestro, tortura e morte de seus cidadãos.

Essa decisão não era uma novidade para a Itália. Ela fizera o mesmo para punir os nazistas que fuzilaram 5 mil homens do Exército italiano na ilha grega de Cefalônia, em 1943, um caso tratado mais de uma vez pelo cinema, em filmes como O Capitão Corelli, com Nicolas Cage e Penélope Cruz. E, simbolicamente, o Estado italiano se havia constituído como parte no processo Condor, indicando Luca Ventrella para representá-lo. Trata-se do mesmo advogado do Estado que obteve em 2013 a condenação à prisão perpétua de Alfred Stork, um dos militares alemães acusados do massacre de Cefalônia. Por meio do vídeo, podia vê-lo sentado no fundo da sala.

As primeiras perguntas do procurador Amélio foram sobre minha profissão. “Onde o senhor trabalha e há quanto tempo pesquisa fatos relacionados à ditadura militar brasileira?” Em seguida, buscou fazer o tribunal entender quem era o general Del Nero e os dados da entrevista. Também queria saber como era o funcionamento do sistema repressivo no Brasil e informações sobre as ligações entre os serviços secretos militares brasileiros e os de outros países da América do Sul, tema tratado em reportagens publicadas pelo Estadão.

Depois de Amélio, foi a vez de Ventrella me questionar. Levantou-se para falar. “O senhor falou sobre as relações entre os integrantes dos serviços militares e as forças de segurança estaduais...” E fez três perguntas sobre a cadeia de comando e as relações entre as forças de segurança estaduais e o CIE.

Por fim, foi a vez do defensor que representava o coronel Átila Rohrsetzer, único réu vivo do processo. Marco Bastoni buscava informações sobre as relações entre a Secretaria da Segurança do Rio Grande do Sul e o Exército no combate “a terroristas”. E quis saber qual a punição para o terrorismo no Brasil naquela época. Após mais de 2 horas de perguntas, o depoimento chegava ao fim.

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