Denúncias de corrupção nos Transportes repercutem no velório de Itamar

Após acompanhar a cerimônia, Aécio cobrou uma 'investigação profunda' do caso

Eduardo Kattah e Marcelo Portela, de O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2011 | 18h38

BELO HORIZONTE - As denúncias de corrupção no Ministério dos Transportes repercutiram nesta segunda-feira, 4, no velório do ex-presidente Itamar Franco, em Belo Horizonte. Logo após acompanhar a cerimônia no Palácio da Liberdade ao lado da presidente Dilma Rousseff, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) cobrou uma "investigação profunda" do caso, que levou ao afastamento de quatro dirigentes da pasta. Presente ao velório, o ex-deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) recorreu justamente ao exemplo de Itamar enquanto presidente para sugerir a saída do ministro Alfredo Nascimento.

 

"São muito graves as denúncias para ficar apenas no afastamento de algumas pessoas", afirmou Aécio. "Não basta afastar as pessoas. É preciso uma investigação profunda e há instrumentos para isso", completou, citando a Procuradoria-Geral da República.

 

Reportagem publicada pela revista Veja apontou o funcionamento de um suposto esquema montado no Ministério dos Transportes baseado na cobrança de propinas de 4% das empreiteiras e de 5% das empresas de consultoria que elaboram os projetos de obras em rodovias e ferrovias. A denúncia levou ao afastamento do diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antônio Pagot, do presidente da Valec Engenharia, José Francisco das Neves, do chefe de gabinete do ministério, Mauro Barbosa Silva, e do assessor Luís Tito Bonvini.

 

Na segunda-feira, 4, Dilma divulgou nota manifestando confiança no ministro dos Transportes e argumentando que Nascimento é o responsável pelo processo de apuração das denúncias.

 

Ciro - cujo irmão, o governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), atacou recentemente o ministro, chamando-o de "inepto, incompetente e desonesto" e classificando o Ministério do Transporte como um "antro de corrupção" -, por sua vez, lembrou o "exemplo de honradez e dignidade" dado por Itamar na Presidência. "Para ser presidente e bem governar não é preciso contemporizar nem fazer acordo com a falta de honestidade", disse.

 

"Eu me lembro de um episódio para dar testemunho disso. O braço direito dele, ministro Hargreaves, foi lançada sobre ele uma suspeição falsa. E ainda que falsa, ele (Itamar) afastou o braço direito dele, amigo de 50 anos, pediu uma apuração e só então, proclamado inocente, ele o trouxe de volta", lembrou Ciro Gomes, referindo-se a Henrique Hargreaves, que ocupou a Casa Civil durante a gestão de Itamar no Palácio do Planalto.

 

Falando em nome da comitiva presidencial, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, evitou se estender sobre o assunto, mas disse que Nascimento está incumbido de fazer uma "investigação rigorosa" sobre as denúncias.

 

"A presidente da República já se manifestou. As providências necessárias foram tomadas. O ministro, de fato, foi confirmado no cargo, está incumbido de fazer uma investigação rigorosa, assim como a CGU vai fazer. E certamente tudo que tiver de ser apurado será apurado", afirmou Pimentel.

 

"Encoraja". Dilma não falou com os jornalistas. A nota da presidente, contudo, foi recebida como um recado positivo pelos representantes do PR. Para o senador Magno Malta (ES), líder da legenda no Senado, a manifestação em apoio a Nascimento "encoraja" o partido.

 

"Temos que dar o crédito para o ministro", afirmou. "Coração de gente é terra que ninguém conhece. Muitas vezes você vê um prefeito estampado no jornal e quem estava roubando a merenda escolar era o vigia. Não tem como tomar conta das pessoas na noite", disse.

 

O senador e presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), Clésio Andrade (PR-MG), classificou a denúncia da revista como uma "versão". Na mesma linha de Malta, procurou desvincular do ministro qualquer eventual comprovação de irregularidade.

 

"Com relação ao ministro Alfredo Nascimento, eu não acredito (nas denúncias). Acho que abaixo dele, se houver culpados, têm que ser punidos."

 

Clésio afirmou ainda que é direito da oposição defender a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso, mas ressaltou que há outras formas "legítimas" de investigação. "A CGU tem todas as condições para isso, o Tribunal de Contas (também) tem."

 

O líder do PR garantiu que o episódio não deixou ressentimentos no partido em relação à presidente Dilma. "De jeito nenhum. Acho que ela agiu rápido. Assim que tinha que ser feito. Acho que até as pessoas que estão saindo estão agradecidas a ela, pois agora elas podem se defender", afirmou. "A rapidez com que ela agiu foi salutar para o País."

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