Demoiselle e relíquias de Dumont correm perigo

É possível se afirmar, sem incorrer em exageros, que o interesse pelo conjunto da obra de Alberto Santos Dumont e de outros brasileiros, pioneiros da história da aviação, é não só do País, mas de toda a humanidade. O acervo de aviões raros, objetos pessoais, condecorações, fotos, publicações, documentos e obras de arte mantém viva uma trajetória, caracterizada, por exemplo, pelo gênio criativo de Dumont e pela ousadia e coragem de João Ribeiro de Barros, que cruzou o Atlântico com o Jahú, em 1927, antes mesmo de Charles Lindbergh. É provável que qualquer nação que tivesse Dumonts ou Barros trataria de preservar seus feitos na mesma extensão da densidade de seu trabalho, expondo-o, com orgulho, ao mundo. No Brasil ou qualquer outro país em que alguém for consultar as maiores realizações dos homens na aviação, nos fins do século 19 e início do século 20, estarão os dois, no grupo dos principais protagonistas. Dumont, Barros, Ada Leda Rogato - brasileira que percorreu as três Américas em um monomotor - e Bartolomeu de Gusmão, um pioneiro dos balões, seriam personagens respeitados em qualquer lugar. Onde nasceram, contudo, sua memória, como quase tudo o que se refere à história desse período da história da aviação, está irresponsavelmente abandonado. A nacele (cesto), bem como o gorro de couro, óculos e luvas usados por Santos Dumont no vôo pioneiro, em 23 de outubro de 1906, o avançado Demoiselle, o avião mais popular criado por ele, um ano mais tarde, textos manuscritos, desenhos e ilustrações do autor, além da biblioteca, são exemplos de pertences da Fundação Santos Dumont, que se deterioram a cada dia em três galpões em Cotia, no Parque Cemucam, da Prefeitura de São Paulo. O que chega a chocar a quem se dirige ao local é a ausência até de segurança, garantida apenas por um caseiro e um cão. O major brigadeiro José Vicente Checchia, presidente da fundação, diz que a entidade não tem hoje receita para nada. Até o telefone teve a linha desligada por falta de pagamento. GoteirasHá um reservado na área do Cemucam, cercado por tela, fechado à visitação pública, onde se acham esses galpões. No mais antigo se concentra a maior parte do acervo. Quando chove, as goteiras exigem que parte das peças seja deslocada por Ana Cecília Faria e Priscila Delgatto, que com o brigadeiro Cecchia e o tenente-coronel Américo Franco constituem o quadro de funcionários da fundação. Há dois anos, foram construídos os dois últimos galpões, que abrigam a maior parte dos modelos, de enorme valor histórico, todas cheias de poeira e com pneus murchos. Estão lá o Muniz M7, primeiro avião a ser construído em série no Brasil, em 1935; o P47 Thunderbolt, caça do comandante da Força Aérea Brasileira na 2.ª Guerra Mundial, Nero Moura, em 1944; o NA T-6D de Antonio Braga, líder da Esquadrilha da Fumaça; e o Cessna 140 de Ada Leda Rogato, entre outros.Leia mais Fundação perdeu sede no Ibirapuera na gestão Pitta Recuperação envolve custo alto e exigirá profissionais de alto nívelPara secretaria, problemas são da gestão anterior

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