Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Democracia não tolera arroubos autoritários; leia análise

Sócios majoritários de um governo desastroso, resta aos militares da Esplanada surfar na tese golpista da fraude eleitoral

Guilherme Casarões, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 20h23

Vivemos num país onde militares temem a democracia. Esse medo nos legou um golpe de Estado e duas décadas de autoritarismo de farda. Só foi apaziguado por uma complexa equação que combinou anistia geral e irrestrita, amplas benesses funcionais e sua tardia submissão ao poder civil, consagrada na criação do Ministério da Defesa. Mas o incômodo com a democracia permaneceu latente entre muitos oficiais, volta e meia eclodindo em homenagens à ditadura ou manifestações políticas esparsas. Ainda assim, a cúpula das Forças Armadas manteve seu senso republicano.

O equilíbrio começou a ruir quando os militares ganharam influência desproporcional no governo Michel Temer. Um ano após autorizar as Forças Armadas a intervir na segurança pública do Rio, por meio de Garantia da Lei e da Ordem, o presidente foi cooptado a oficializar um general da reserva como ministro da Defesa, rompendo o princípio da primazia do poder civil. Não parece coincidência que, no mesmo contexto, o Comandante do Exército sentiu-se à vontade para atentar publicamente contra o equilíbrio de poderes nas redes sociais.

Em 2018, temendo que as urnas trouxessem mais um mandatário indesejado, os militares cerraram fileiras em apoio ao único candidato que sempre desprezou a democracia, o capitão reformado Jair Bolsonaro. Voltariam ao poder sem os custos do autoritarismo explícito e assegurariam o atendimento de suas demandas, ideológicas ou paroquiais. Deu certo: há dois anos, a Esplanada vem sendo ocupada por 6 mil militares em cargos civis, inclusive no primeiro escalão.

Mas esses militares seguem com medo da democracia. Sabem, afinal, que é um sistema que não tolera arroubos autoritários e que tende a punir a corrupção e a incompetência. Diante do trabalho desastroso como sócios majoritários do governo, do enfrentamento à pandemia à preservação ambiental, só lhes resta bradar contra o povo nas ruas e surfar na tese golpista da fraude eleitoral

Não nos enganemos: os medrosos do Planalto, apesar de mais agressivos, são cada vez menos numerosos. Gritam tanto porque sabem que voltarão à caserna muito em breve, para cumprir, bem ou mal, a real missão que Constituição lhes atribuiu. A mesma democracia que permitiu que os militares fossem testados politicamente os reprovará, com distinção e louvor.

* CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DA FGV EAESP

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