Demitidos pelo ex-presidente são reintegrados nos cargos

Foram mais de 80 mil os atingidos pelo Plano Collor

BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2009 | 00h00

Ao mesmo tempo que o ex-presidente Fernando Collor de Mello assume posição de destaque no Senado, servidores públicos demitidos em seu governo na década de 90 iniciam o processo de volta à burocracia.Vânia Maria Calixto, viúva, 50 anos; Abigail Loureiro Diógenes, divorciada, 60; e Jorge Veríssimo da Silva, casado, 49, integram a última leva, de 157 servidores da Empresa Brasileira de Transportes Urbanas (EBTU), extinta pelo Plano Collor em 1990, autorizada pelo governo a retornar ao trabalho.Dos mais de 80 mil atingidos pelo Plano Collor, 14 mil tiveram o retorno dificultado porque pertenciam a órgãos extintos e foram demitidos em caráter definitivo. Desses, 7 mil já voltaram, boa parte por via judicial, e 2.850 estão em processo de readmissão. Os servidores da EBTU já estão fazendo exames para retorno ao trabalho.Vânia, Abigail e Jorge seguiram trajetórias distintas de vida a partir da demissão. "Foi muito difícil para todos nós a demissão porque tivemos de interromper nossos projetos de vida", lembra Vânia. Depois da extinção do órgão onde trabalhava, ela deixou o Brasil e viveu na França nos últimos 14 anos. Abigail passou maus bocados, pulando de um subemprego a outro, e Jorge sobreviveu vendendo pães na portaria do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Denit), órgão vinculado ao ministério onde trabalhou no passado, "com orgulho".Mas o processo de volta é kafkiano: havia a decisão política do governo, mas a reintegração dos demitidos esbarrava sempre na má vontade da máquina. "A estrutura de governo não queria a nossa volta e o sistema montou barreiras quase intransponíveis", queixa-se Abigail.Jorge, além do emprego, perdeu na época a chance de comprar o apartamento funcional onde morava porque ficou sem renda. Teve de se virar. A mulher, Maria Nazaré do Nascimento, desafiada pelas circunstâncias, desenvolveu dotes culinários. Após alguns cursos no Senac, começou a produzir pães, salgados e tortas em casa e pôs o marido para vender.Hoje ele fatura cerca de R$ 2.500 por mês, descontadas todas as despesas, vendendo seus produtos na portaria do Denit, onde trabalha das 14h às 18h, de segunda a sexta-feira, jornada bem mais leve do que na antiga repartição. A mulher também fatura a sua cota atendendo a encomendas especiais de clientes, entre os quais o Palácio do Planalto. Nos finais de ano, o faturamento do casal dobra. "A minha mulher vale ouro, é melhor do que qualquer estatal."CORREÇÃOA Comissão Especial Interministerial (CEI), do Ministério do Planejamento, criada para cumprir a lei da anistia às vítimas do plano (Lei 8.878/94), promete zerar a pauta até o final do ano. Faltam pouco mais de 4 mil processos a serem julgados.A lei manda aplicar ao salário o fator de correção oficial do setor público, sobre o último contracheque recebido pelo servidor antes de ser demitido. O cálculo para o pessoal da EBTU resultou em duas faixas: uma de R$ 2.070 para o Nível Intermediário (NI) e outra de R$ 3.035 para Nível Superior (NS). "Vamos primeiro assumir e depois brigar pela correção dos valores", disse Jorge.

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