DEM decide processar vice de Yeda

Sob pressão de tucanos, que ameaçavam retirar apoio a seus candidatos, partido abre procedimento para punir Feijó

Christiane Samarco, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2008 | 00h00

A Executiva Nacional do DEM abriu processo disciplinar contra o vice-governador do Rio Grande do Sul, Paulo Feijó, por ter gravado conversas com autoridades do governo Yeda Crusius (PSDB) para fundamentar denúncia de corrupção. Sob pressão dos tucanos, que ameaçaram retirar o apoio a vários candidatos seus nas eleições municipais, a idéia do DEM de encerrar o caso Feijó numa conversa intramuros foi abortada.Mas em resposta ao pedido de expulsão do partido, apresentado ontem à executiva pelo senador Heráclito Fortes (PI), os dirigentes do DEM preferiram processar Feijó. A maioria do colegiado considerou a pena máxima exagerada, porque as denúncias de corrupção no Detran gaúcho são procedentes. Descartada a expulsão, o estatuto do DEM prevê penas de advertência, censura pública ou suspensão. Para o presidente nacional do partido, deputado Rodrigo Maia (RJ), independentemente do parecer do relator do processo, deputado André de Paula (PE), está claro que Feijó não ficará impune. "A nota da executiva, em si, já é uma punição", avaliou. Maia referia-se ao parágrafo de abertura do processo, em que o DEM reafirma que "considera importante a observação do princípio da legalidade em quaisquer procedimentos de ação política e condena a forma usada pelo vice-governador Paulo Feijó de gravar e vazar conversas particulares". Em seguida, o DEM "insiste, igualmente, no combate rigoroso à corrupção e a quaisquer desvios éticos e morais".ALIANÇAA decisão da executiva de processar Feijó vai além da reprovação do "método" utilizado para fazer sua denúncia. O comando do DEM agiu rápido para preservar a aliança nacional com o PSDB e ajudar a cúpula tucana a salvar o governo de Yeda, mergulhado em uma grave crise política desde que o vice entregou as gravações à deputada Stela Farias (PT), integrante da CPI do Detran da Assembléia Legislativa e uma das maiores críticas da governadora.A pressão dos tucanos foi tanta que o líder do partido no Senado, José Agripino (RN), cobrou logo que desse uma "satisfação" ao PSDB. Talvez por isto o DEM tenha registrado na nota que considerou "satisfatórias" as medidas tomadas pela governadora para superar a crise. Yeda montou um gabinete de transição composto por representantes de todos os partidos que lhe dão sustentação e anunciou a formalização de uma carta-compromisso que todos os que assumirem postos de chefia terão de assinar. Informado sobre cada passo de Yeda, o DEM registrou na nota que "mantém confiança na política do Rio Grande do Sul em busca do equilíbrio fiscal, um dos lastros da longa e exitosa aliança nacional que tem unido Democratas e PSDB".Heráclito abriu o debate frisando que a executiva "tem muita estrada para aceitar que se quebrem as regras de convivência civilizada". No mesmo tom, Agripino insistiu em que "a governadora não está sendo acusada de nada e a forma como a denúncia foi feita destrói o componente fundamental da relação política, que é a confiança".Até o presidente do DEM gaúcho, deputado Onyx Lorenzoni, concordou com a avaliação de que gravar conversas é um "método inadequado". Mas disse que "repúdio" era um termo forte demais para criticar o vice. "Não assino nota se não for para condenar o gesto dele", avisou Maia. "E esse rapaz ainda vem a público dizer que tem outras gravações. O que é isto, presidente?", indagou Heráclito. "É o espião que veio do frio", respondeu o deputado Eduardo Sciarra, patrocinando o único momento descontraído da reunião.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.