Delegado usou cinegrafista da Globo para dar flagrante

Relatório de 88 páginas de corregedor da PF detalha como foi a colaboração da emissora com Protógenes

Rui Nogueira, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

09 de abril de 2009 | 00h00

A quebra do sigilo telefônico do delegado Protógenes Queiroz provou que foi ele mesmo quem telefonou para a reportagem da TV Globo para acertar a filmagem da prisão do ex-prefeito Celso Pitta, do investidor Naji Nahas e do banqueiro Daniel Dantas, na madrugada do dia 8 de julho do ano passado, na Operação Satiagraha. Além de provar o vazamento de informações, a investigação do delegado corregedor Amaro Vieira também sustenta que uma equipe da TV Globo de São Paulo foi usada por Protógenes para prestar um serviço tipicamente policial na operação: a emissora filmou, a pedido de Protógenes, o flagrante no restaurante El Tranvia, em junho, em que o delegado Victor Hugo Alves Ferreira recebeu R$ 50 mil dos empresários Hugo Chicaroni e Humberto Brás para tentar evitar o aprofundamento das investigações em cima de Dantas.Informada sobre os detalhes da investigação de Amaro Vieira, a Central Globo de Comunicação disse ao Estado, por e-mail, que a emissora não se pronunciaria sobre o assunto.O relatório de 88 páginas do delegado detalha como foi a colaboração da TV Globo com Protógenes. Na ânsia de trabalhar sempre fora do controle dos diretores da PF, o delegado "se encarregou de providenciar uma equipe para realizar a filmagem do encontro" no El Tranvia. Os extratos telefônicos de Protógenes mostram que no dia da gravação ele fez pelo menos 22 telefonemas ou tentativas de ligação para o cinegrafista da Globo Robinson Cerantula, a fim de fazer os acertos da filmagens.O cinegrafista, segundo o relatório da PF, foi orientado pelo agente federal Amadeu Ranieri Bellomusto sobre a melhor maneira para gravar o encontro no restaurante. "Além de recepcionar os jornalistas no local dos fatos (restaurante El Tranvia) Bellomusto indicou-lhes as posições que deveriam ocupar para capturar melhores ângulos, tendo posteriormente recebido as gravações que, após editadas de modo a suprimir evidência da participação dos jornalistas, teriam sido utilizadas na instrução processual." PEN DRIVEAs imagens usadas pela PF abasteceram depois o noticiário e foram apresentadas como "um trabalho policial". A íntegra do trabalho da Globo foi encontrado em um pen drive que estava entre os objetos de Protógenes apreendidos na busca realizada pela corregedoria da PF no Hotel Shelton, em São Paulo. Bellomusto chegou a dizer que fora o autor das filmagens, mas foi desmentido pela análise da íntegra das imagens que estavam com o delegado.A relação Protógenes-TV Globo também ficou evidenciada pelo extrato das ligações telefônicas do dia 8 de julho, quando as equipes da PF saíram às ruas para efetuar as prisões da Operação Satiagraha. O delegado fez pelo menos sete ligações para o jornalista Cesar Tralli, quando as equipes da Globo se postavam para filmar as prisões de Pitta e Naji Nahas.O relatório do delegado Amaro revela ainda a forma como Protógenes, em parceria com o Ministério Público, agia para levar à mídia a informação de que estava sendo boicotado pelos superiores. Amaro relata vários casos na Operação Satiagraha e recupera a título de exemplo, com provas, o que o delegado fez no caso da "máfia do apito", uma investigação sobre corrupção no futebol.Protógenes chegou a plantar uma acusação "falsa" e "anônima" no Ministério Público, dizendo que o comando da PF havia "ordenado a paralisação dos trabalhos". Fazia isso sempre que as investigações sob seu comando não evoluíam. ABINNas 88 páginas da investigação, quase a metade é usada para mostrar detalhadamente como o delegado usou os agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) na Satiagraha. Muitos dos "agentes" eram motoristas e funcionários do apoio administrativo, e não oficiais da inteligência da Abin. Eles ficavam semanas à disposição de Protógenes para não fazer nada ou apenas checar endereços.Um dos funcionários da Abin confessa que ficou 60 dias na mesma cidade só para checar quatro endereços - diz no depoimento que se sentiu em férias. Ao todo, foram mobilizados agentes da Abin em 11 Estados. Outro agente confessou que "ficou ocioso a maior parte do tempo". Em 18 dias de trabalho em São Paulo, outro agente "checou dois endereços".Os agentes da Abin tiveram acesso ilimitado ao Guardião, sistema de grampos da PF.

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