Delegado confirma acareação entre juiz e mulher de Cachoeira

Segundo a PF, Andressa Mendonça teria oferecido 'vantagens' e também ameaçou juiz de publicar dossiê, se ele não decidisse pela liberdade de seu marido

Rubens Santos, especial para O Estado - atualizada às 19h26

30 de julho de 2012 | 18h15

O delegado Sandro Paes Sandre, da Policia Federal, disse nesta segunda-feira, 30, que a acareação entre o juiz federal Alderico Rocha Santos e Andressa Mendonça, a mulher do contraventor Carlos Augusto Ramos, será na próxima semana. A mulher de Carlinhos Cachoeira foi denunciada por tentativa de chantagem pelo juiz da 11a. Vara da Justiça Federal em Goiás.

"Essa diligência (acareação), corroborada com outras que serão desenvolvidas, e com outros elementos de provas que serão coletados, formarão a apuração da autoridade policial", disse o delegado.

Uma Nota Oficial da PF diz que a mulher de Cachoeira teria oferecido ao juiz vantagens, o que caracteriza corrupção ativa.

"Ela (Andressa) me procurou, no meu gabinete, e disse ter em seu poder um dossiê, preparado por jornalista de uma publicação de repercussão nacional", disse o juiz à pessoas que trabalham em seu gabinete, na 11a. Vara Federal. "Ela disse, ainda, que se decidisse pela liberdade do Carlinhos Cachoeira, esse dossiê não seria publicado". O conjunto de documentos contendo "informações desfavoráveis" ao juiz Alderico Rocha Santos seria publicado pelo repórter Policarpo Júnior, na revista Veja. Foi com essa informação que ela pediu a audiência e entrou na sala do juiz, na semana passada. Outro juiz federal, Wilson Dias, também foi apontado por ela como alvo do dossiê.

Andressa Mendonça garantiu a Santos que poderia impedir a publicação. Para isso, disse que bastaria que ele "concedesse liberdade ao réu Carlos Augusto de Almeida Ramos", o Carlinhos Cachoeira, "e o absolvesse das acusações ofertadas pelo Ministério Público Federal (MPF)", diz o texto da representação do próprio MPF, que foi recebida em plantão e divulgado agora a pouco pela Justiça Federal em Goiás.

Durante o encontro, ocorrido na quinta-feira, 26, após a tomada de depoimentos de acusados na Operação Monte Carlo, a mulher do bicheiro teria pedido um pedaço de papel, onde escreveu três nomes de amigos do juiz e que fazem parte do tal dossiê.

Em vez de dar voz de prisão a Andressa Mendonça, o juiz esperou que ela saísse da sala, pegou o pedaço de papel, e acionou a PF.

As provas. A PF fará perícias nos celulares, computadores e tablets apreendidos. Também fará perícia no papel que Andressa entregou ao juiz, e comparar à escrita da mulher de Cachoeira.

Além dessas informações, o juiz Alderico Santos se propõe a apresentar outras provas contra a mulher do bicheiro. Como imagens das câmera instaladas no gabinete, o testemunho de funcionários dando conta da presença da mulher do contraventor.

Com todas as provas somadas, Andressa poderá ser indiciada, o inquérito da PF encerrado e enviado para a Justiça Federal em Goiás.

Questionada sobre o caso, a advogada Cláudia Batista, disse que a denúncia vai pesar contra a mulher do bicheiro. Porque "o juiz tem fé pública", e o pedaço de papel deixado por ela "é um principio de prova bem robusta". "Por se tratar de juiz federal, e se ele tiver outras provas como testemunhas, será indiciada em processo de tentativa de chantagem; se ofereceu dinheiro ou outra vantagem, por corrupção passiva", disse Batista.

No caso, o processo de Andressa Mendoça correrá em paralelo à Operação Monte Carlo, por se tratar de um crime cometido "a posteriori" do escândalo.

Choro. Andressa, tida por uns como musa da CPMI do Senado Federal, se mostrou surpresa ao receber, às 7h da manhã, policiais com o "mandado de condução coercitiva", expedido pela Justiça Federal.

Um dos policiais, que esteve no condomínio de luxo onde mora o casal, disse que ao ser convocada Andressa engoliu em seco, depois chorou muito. Ainda viu serem apreendidos computadores, celulares documentos escritos à mão por ela, e tablets, em mandato de busca e apreensão.

A mulher de Cachoeira ficou três horas detida na PF. Foi liberada, por não ter sido presa em flagrante. Mas foi arbitrada fiança, no valor de R$ 100 mil, em dinheiro, por meio de depósito bancário, até quarta-feira, 1.

O descumprimento da medida cautelar resultará em mandato de prisão preventiva, disse a Policia Federal. Poderá ainda ser presa se tentar falar com seu marido, hóspede da Papuda (DF).

"Ela está sendo monitorada", disse o delegado Sandro Sandre. "E também está proibida de acesso e frequência à Justiça Federal, e de entrar em contato com qualquer pessoa envolvida na Operação Monte Carlo", disse ele. O juiz determinou, ainda, a proibição de Andressa Mendonça de manter qualquer contato pessoal, telefônico ou por qualquer outro meio, ainda que por pessoa interposta, com o juiz federal Alderico Rocha Santos.

Também foi proibida de manter contato com Caros Augusto Almeida Ramos, Lenine Araújo de Souza, José Olímpio de Queiroga Neto, Raimundo Washington de Souza Queiroga, Giovani Pereira da Silva, Idalberto Matias de Araújo, Gleyb Ferreira da Cruz e Wladimir Garcez Henrique.

O juiz também determinou a quebra de sigilo os dados telemáticos e informáticos de Andressa, e também determinou que a quebra das medidas a ela impostas resultarão em prisão preventiva.

Triste Coincidência. A PF também investiga se Andressa Mendonça recebeu ordem do marido para agir. Se for confirmado, disse um policial para O Estado, a mulher de Carlinhos Cachoeira, corre o risco de acabar como Jaqueline Alcântara de Moraes, mulher de Fernandinho Beira-Mar.

Ela recebia na prisão e repassava as ordens do marido, e se tornou a número 2 da organização de Beira-Mar e foi presa em 2007 durante a operação Fênix. Na época, as escutas telefônicas da PF indicaram que a mulher exercia "dedicação profissional à atividade criminosa".

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