FOTO WILTON JUNIOR|ESTADÃO
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Delcídio discute com advogados se vai falar em sessão de cassação

Senador entrou na semana passada com um pedido de licença de 100 dias para tratar de assuntos particulares, embora tenha comparecido ontem à CCJ

Ricardo Brito e Isabela Bonfim, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2016 | 12h30

BRASÍLIA - O senador Delcídio Amaral (sem partido-MS) está reunido na tarde desta terça-feira, 10, em um hotel em Brasília com advogados e com a família para decidir se ele deve comparecer ao Senado e falar na sessão marcada para as 17 horas que votará sua cassação por quebra de decoro parlamentar. Ele entrou na semana passada com um pedido de licença de 100 dias para tratar de assuntos particulares, embora tenha comparecido ontem à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa para se defender do processo de perda de mandato.

O ex-líder do governo Dilma Rousseff, que fez uma delação premiada para deixar a prisão, implicou uma série de senadores, entre eles o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Nos bastidores, Renan tem se posicionado contra o senador falar. O receio é de que o ex-petista amplifique as acusações feitas contra o presidente da Casa em plenário, com todos os holofotes voltados para o Senado.

Na segunda, 9, Renan usou seu peso político e influência para garantir a votação da cassação de Delcídio - tida como certa pelos senadores - ainda nesta terça, na véspera da sessão que apreciará o afastamento de Dilma. O peemedebista ameaçou adiar a votação sobre a presidente caso os senadores da CCJ não recuassem da intenção de dar mais prazo para a defesa dele. Numa manobra, ele conseguiu manter o cronograma original.

Emoções. Delcídio Amaral ainda estava comemorando nos corredores do Senado o primeiro resultado da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que havia suspendido seu processo de cassação, quando começou no plenário da Casa uma discussão para garantir que o ex-líder do governo fosse cassado nesta terça de qualquer forma. Um de seus assessores foi avisado por telefone pela esposa de Delcídio, Maika do Amaral, e tentou tranquilizá-la.

"Ele está falando isso? Não, Maika, ele não tem esse poder", disse um dos assesores de Delcídio ao telefone, enquanto o senador ainda dava entrevistas nos corredores, dizendo que a decisão da CCJ de parar seu processo foi "didática". O assessor se referia ao posicionamento do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que, naquele momento, ameaçava não realizar a sessão de impeachment da presidente Dilma Rousseff se a cassação de Delcídio não fosse apreciada antes. Poucas horas depois, em uma decisão incomum, o Senado voltou atrás e marcou a sessão que vai julgar o afastamento de Delcídio para a tarde desta quarta.

O assessor gastou alguns minutos ao telefone com Maika, tentando explicar que a CCJ já havia decidido conceder mais prazo a Delcídio e que, normalmente, votações das comissões não podem ser desfeitas pelo presidente do Senado. Não se esperava, naquele momento, que o senador Romero Jucá (PMDB-RR) desse uma cartada regimental, apresentando um requerimento de urgência para adiantar a votação da cassação de Delcídio.

Após desligar o telefone, o assessor chamou Delcídio, ainda em frente às câmeras, e cochichou ao seu ouvido a notícia que a esposa do senador havia lhe dado. O ex-petista mudou de semblante, mas também não pareceu convencido de que seria possível revogar a decisão da CCJ. Se despediu calmamente dos jornalistas e saiu pelo elevador privativo.

A discussão no plenário do Senado se estendeu. Renan chegou a confrontar diretamente outros senadores chamando a decisão de "procrastinatória" e "espetáculo". Ele operou às claras durante uma semana para garantir que Delcídio fosse cassado antes da votação de impeachment de Dilma Rousseff, um pedido que a própria presidente fez a ele.

Quando o plenário do Senado aprovou o requerimento de urgência de Jucá, não restou outra solução além de realizar nova sessão da CCJ. Sem sequer se dirigir à sala original da comissão, os senadores deram início dentro do próprio plenário a uma sessão extraordinária, curta e simbólica, apenas para referendar o que já estava decidido. Anularam a decisão da tarde e agendaram para 17h desta terça-feira, 10, a sessão de cassação de Delcídio Amaral.

Recluso desde então, o senador que voltou falante na terça ao Senado após mais de cinco meses de sua prisão preventiva, não quer mais dar entrevistas.

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