Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Delator fala em propina para o PMDB em Belo Monte e cita nome de Lobão

'Se não me engano, foi combinado através do Doutor Edison Lobão e teve um outro, um deputado ou um ex-deputado', disse o ex-presidente da Construtora Norberto Odebrecht

Rafael Moraes Moura e Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

24 Março 2017 | 19h39

BRASÍLIA - O executivo Benedicto Júnior, ex-presidente da Construtora Norberto Odebrecht, mencionou em depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o pagamento de propina nas obras da usina de Belo Monte e citou o nome do senador Edison Lobão (PMDB-MA). Ele disse que a obra foi incorporada à sua área depois que as tratativas do pagamento já estavam feitas, mas falou em “compromissos” destinados a dois partidos: o PT e o PMDB.

Com relação ao PT, segundo ele, o herdeiro do grupo Odebrecht, Marcelo Odebrecht, indicou que as contribuições não deveriam ser feitas. “Não houve nada ao PT especificamente feito por Belo Monte por orientação do próprio Marcelo”, disse.

BJ, como é conhecido na empreiteira baiana, prestou depoimento na ação que investiga abuso de poder político e econômico na eleição presidencial de 2014. Ele não deu detalhes sobre os pagamentos ao PMDB pela obra de Belo Monte, mas disse que as informações constam em relatos de outros executivos que firmaram acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal.

“Os nomes das pessoas são os que estão circulando aí. Se não me engano, foi combinado através do Doutor Edison Lobão e teve um outro, um deputado ou um ex-deputado, que posteriormente ao Doutor Edson Lobão foi quem recebeu em nome do PMDB - um deputado do Pará. Essas foram as duas pessoas cujos nomes eu ouvi, Doutor”, disse o delator no depoimento ao TSE.

De acordo com ele, o executivo que cuidava da obra de Belo Monte é Augusto Roque. “Eu não li o depoimento do meu executivo, Augusto Roque, e quando recebi a obra isso já estava combinado, que haveria contribuições a serem feitas a dois partidos, o PT e o PMDB”, complementou BJ.

Advogado de Lobão, o criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, disse que o vazamento de delação é um “ato criminoso, ilegal, imoral”. “Pelo que me disseram, o Benedicto Junior fala em talvez, que apenas teria ouvido dizer que seria o senador Edison Lobão. Não posso acreditar que uma delação vai levar a sério uma afirmação de ‘ouvir dizer’”, disse o criminalista.  

Doações e caixa 2. O executivo disse ao TSE que a Odebrecht tinha uma política de doação eleitoral “sem critério político nenhum, era genérica”. BJ cuidava das doações para campanhas de governadores, senadores e deputados, mas não tratava das questões de doações para campanha presidencial.  “A campanha presidencial, na sua magnitude, era sempre levada para o Marcelo (Odebrecht) diretamente, porque ele tinha relação com as pessoas”, disse.

De acordo com o ex-presidente da construtora, em 2014 a Odebrecht doou, no total, R$ 200 milhões. O valor engloba as doações a todas as campanhas. Deste montante, R$ 120 milhões foi em “caixa 1” das empresas do grupo Odebrecht – ou seja, declarados à Justiça Eleitoral. O restante foi dividido entre doações oficiais feitas por outras empresas a pedido da Odebrecht – como a cervejaria Itaipava – e doações por caixa 2.

Ele explica que não necessariamente as doações em caixa 2, portanto não registradas, eram fruto de propina e que a Odebrecht não queria se expor na lista de maiores doadoras.

“Então, era feito dessa maneira, o que não necessariamente implica que o que era caixa 2 ou caixa 1 de terceiros fosse alguma coisa combinada de propina. Era uma doação institucional que a gente estava fazendo, só não queríamos fazer um volume de duzentos milhões para não ficar um grande doador e passar na frente de um monte de gente que gostava de doar e ficar num número lá em cima. Então, essa era a diferenciação", explica o executivo.

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