Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Delator diz que Odebrecht entregou dinheiro vivo para comprar tempo de TV para chapa Dilma/Temer

Alexandrino Alencar disse que a empreiteira pagou um total de R$ 21 milhões, proveniente de caixa 2, a três partidos políticos para comprar tempo de TV para a chapa em 2014

Rafael Moraes Moura e Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

23 Março 2017 | 20h52

BRASÍLIA - Em depoimento prestado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-diretor de relações institucionais da Odebrecht Alexandrino Alencar disse que a empreiteira pagou um total de R$ 21 milhões em dinheiro vivo a três partidos políticos para comprar tempo de TV para a chapa de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (PMDB) em 2014. O dinheiro, proveniente de caixa 2, foi entregue em hotéis e flats.

Conforme antecipou o Estado, Alexandrino Alencar disse ao TSE que a empreiteira pagou R$ 7 milhões para cada um desses três partidos: PROS, PCdoB e PRB, em um total de R$ 21 milhões. A reportagem obteve nesta quinta-feira (23) a íntegra do depoimento do ex-executivo da Odebrecht, mantido sob sigilo.

De acordo com Alencar, cada um desses três partidos eram chamados por codinomes: PROS era “onça”; PC do B, “vermelho”; e PRB, “doutor”.

“Eram inicialmente cinco partidos que houve essa demanda para gente contribuir via Caixa 2, e eu fiquei encarregado de três partidos. Então, três partidos foram feitos por mim, a saber: o PROS, o PCdoB e o PRB”, informou Alencar ao ministro Herman Benjamin, relator da ação que apura se a chapa Dilma-Temer cometeu abuso de poder político e econômico para se reeleger em 2014. Os outros dois partidos do bloco, PDT e PP, tiveram tratativas conduzidas por outros executivos da empreiteira, segundo o relato do delator.

De acordo com Alexandrino Alencar, a demanda surgiu do então tesoureiro da campanha de Dilma, Edinho Silva (PT), em reunião ocorrida em 11 junho de 2014, com a presença de Marcelo Odebrecht. O encontro ocorreu no escritório da empreiteira. De acordo com o delator, Edinho chegou com a proposta pronta dos valores a serem acertados e a indicação de que o pagamento seria feito via caixa dois.

Questionado pelo ministro Herman Benjamin se havia ficado claro os termos do pedido, Alexandrino foi categórico: “Sim, para a compra dos partidos. E tanto é, depois quando eu contatei as pessoas que o Edinho me solicitou pra falar, era claramente uma compra do tempo de TV, que, se não me engano, isso deu, aproximadamente, 1/3 (um terço) a mais de horário de TV para a chapa.”

Fontes que acompanham as investigações consideram o depoimento de Alexandrino Alencar um dos mais delicados para Dilma e Temer, já que em 2015 o TSE mudou a sua jurisprudência e passou a reconhecer a compra de apoio político como uma forma de abuso de poder econômico.

Queixas. De acordo com Alexandrino, também havia queixas dos partidos, de que os pagamentos fossem mais rápidos. “Às vezes, os partidos voltavam para o Edinho, o Edinho me ligava e dizia: olha, Alexandrino, estão me ligando do partido de fulano de tal, estão preocupados”. Por conta das cobranças, o contato era frequente com Edinho. De acordo com o delator, o “fluxo” dos pagamentos foi objeto de mais dois encontros em que Marcelo Odebrecht estava presente, antes do segundo turno eleitoral.

Em relação à cobrança dos partidos beneficiados, Alexandrino Alencar informou os nomes dos seus interlocutores. “Pelo PROS, o meu interlocutor foi o presidente do PROS, Eurípedes Junior; pelo PCdoB, foi o senhor chamado Fábio (...), que é de Goiás aqui; e pelo PRB, o atual Ministro Marcos Pereira, que era presidente do PRB.”

Indagado por que a empreiteira fez a distribuição dos recursos via caixa 2 e não caixa 1, Alexandrino rebateu: “Eu acho que a pergunta não é para mim. Pergunta para ele (Edinho). Eu acredito pelas dificuldades de... talvez não querer aparecer os recursos nos partidos. Não sei. Aí é uma negociação dele com os partidos”,

O depoimento de Alexandrino também expõe a operacionalização do pagamento de caixa 2. A disponibilização dos recursos em espécie e a entrega do dinheiro era operacionalizada pelo Setor de Operações Estruturadas da empreiteira, conhecido como o departamento da propina. Ele afirma, por exemplo, que onde os pagamentos eram feitos era um assunto tratado com a secretária do setor, Maria Lúcia Tavares.  “Eu contatava a pessoa da Operações Estruturadas (conhecido como departamento da propina) e dizia: olha, temos essa demanda, temos que fazer uma programação - existia uma programação. E aí variava: às vezes a pessoa, o partido, ficava num hotel e o recurso ia para o hotel, ou tinha um lugar fixo em São Paulo, um flat, onde as pessoas dos partidos iam lá buscar. Aí era uma conveniência operacional, que aí eu não me metia nisso”, descreveu o ex-executivo da Odebrecht.

Reforma política. Ao final do depoimento, Herman Benjamin quis saber a opinião de Alexandrino Alencar sobre o funcionamento das eleições e a corrupção no País.

"O senhor, por exemplo, neste trabalho que fez à frente da Odebrecht, em algum momento se questionou se aquilo era certo, era errado e também as suas observações sobre: é possível melhorar? É possível se pensar de alguma forma em controlar doações empresariais porque este vem a ser o grande dilema", questionou o ministro.

Alexandrino respondeu ao ministro que, sem reforma política, o "Brasil vai patinar".

"Essa questão dos marqueteiros é que gera muito essa questão dessas doações Caixa 2. Tudo tem que ser justificado por aí. Eu acho que muito disso está nesse programa de televisão que não sei qual é a eficácia para a população, mas é para o marqueteiro e para as redes de televisão", afirmou o ex-diretor de relações institucionais da Odebrecht.

Defesas. Em resposta encaminhada ao TSE na segunda-feira, o PRB disse não ter recebido caixa 2, propina, ou "recurso financeiro de qualquer origem ilícita" para apoiar a chapa Dilma-Temer nas eleições de 2014. O PCdoB informou o TSE que o apoio à candidatura de Dilma em 2014 se deveu a "identidade de projetos político-ideológicos".

Em entrevista recente ao Broadcast, Edinho Silva negou participar de irregularidades na campanha e questiona "que poder" teria para fazer determinações à Odebrecht. "Eu nunca participei de uma reunião cuja pauta fosse de caixa 2 e, se houve doação por caixa 2 para outros partidos, foi opção da empresa", disse Edinho na entrevista. A defesa da presidente Dilma Rousseff emitiu nota nesta quinta-feira na qual destaca que a vida pública da petista é "limpa e honrada" e critica vazamentos de informações protegidas por segredo de justiça.

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