TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Delação da Odebrecht não cita entregas de R$ 14 milhões em dinheiro vivo

Cruzamento de dados aponta 22 codinomes de supostos intermediários de propinas que não foram revelados na colaboração; identificação era exigência do acordo

Fabio Leite, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2019 | 05h00

Arquivos da transportadora de valores usada pela Odebrecht para executar pagamentos ilícitos a políticos e agentes públicos na cidade de São Paulo indicam ao menos R$ 14 milhões em entregas de dinheiro vinculadas a codinomes criados pela empreiteira que ainda não foram esclarecidos pelos delatores mais de dois anos após o acordo de colaboração premiada celebrado com o Ministério Público Federal (MPF).

A reportagem do Estado confrontou os dados da planilha e do registro de conversas de Skype entregues por um ex-funcionário da Transnacional à Polícia Federal com a programação semanal de pagamentos feita pelo Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, o departamento de propina da empreiteira. As entregas abarcam um período que vai de maio de 2013 a maio de 2015 e envolvem mais de R$ 200 milhões em repasses. O dinheiro vivo era captado em comércio popular de São Paulo.

Nos arquivos da transportadora aparecem, por exemplo, quatro pagamentos no valor total de R$ 2 milhões a uma pessoa chamada Ademir Scarpin. As datas, valores e senhas coincidem com os pagamentos vinculados ao codinome “Sócio 1” na planilha da Odebrecht, que, por sua vez, está relacionado à obra Blumenau. Os supostos pagamentos teriam ocorrido entre fevereiro e abril de 2014 em um prédio comercial na avenida Faria Lima, em Pinheiros.

Naquele período, Scarpin era diretor financeiro da Engeform, empreiteira sócia da Odebrecht em um consórcio de saneamento em Blumenau (SC). O codinome “Sócio 1” não foi identificado pelos ex-executivos da Odebrecht à época da delação e permanece misterioso. A reportagem procurou Scarpin por telefone em sua empresa de consultoria, deixou recado, mas não obteve retorno.

Ao todo, a reportagem identificou pagamentos vinculados a 22 codinomes ainda obscuros, como “Avesso”, “Babaçu”, “Crente”, “Dr. Silvana” e “Leleco”. O maior valor supostamente pago está atrelado ao codinome “Príncipe”. Segundo a planilha da Transnacional, foram R$ 3,5 milhões em entregas que teriam sido feitas a Marcelo Marques Casimiro, taxista de confiança do publicitário André Augusto Vieira, acusado de ser operador do ex-presidente da Petrobrás e do Banco do Brasil Aldemir Bendine.

TV ESTADÃO: Odebrecht – O caminho do dinheiro

Casimiro já foi apontado como portador da propina de R$ 3 milhões que resultou na condenação de Bendine a 11 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, em março de 2018. Neste caso, contudo, o codinome de Bendine na planilha da Odebrecht era “Cobra”. Ele nega as acusações. A reportagem questionou a empreiteira quem são as pessoas relacionadas aos apelidos até agora não esclarecidos, mas não obteve resposta.

A lista inclui ainda dois codinomes vinculados à Arena Corinthians, construída pela Odebrecht para a Copa de 2014: “Papai Noel” e “Azeitona”. No primeiro caso, o suposto pagamento, no valor de R$ 500 mil, foi feito a uma pessoa chamada Erasmo em um apartamento nos Jardins. Já o segundo teria sido para Epaminondas. Nos dois casos, as identidades dos beneficiários finais do dinheiro nunca foram reveladas pelos delatores ou divulgadas, já que o inquérito sobre o estádio corintiano sempre estava sob sigilo.

Identificação é uma das obrigações impostas pela PGR

A identificação dos codinomes é uma das obrigações impostas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) no acordo de delação premiada fechado com 77 executivos da Odebrecht em dezembro de 2016. Na maioria dos casos, o apelido identifica o verdadeiro beneficiário dos pagamentos de propina e caixa 2, enquanto que os nomes que aparecem nos arquivos da transportadora costumam ser os dos intermediários encarregados de pegar o dinheiro para os políticos.

A reportagem indagou a PGR se ela sabe a quem se referem os codinomes ainda não identificados, mas o órgão informou que não pode se manifestar sobre o assunto porque os acordos de colaboração são sigilosos. Sempre que os investigadores da força-tarefa da Lava Jato esbarram em apelidos ainda desconhecidos em documentos da Odebrecht, como e-mails e planilhas, eles acionam o executivo responsável pela informação, que é obrigado a esclarecer o teor.

Os maiores valores não esclarecidos na delação

1. ‘Príncipe’

Valor: R$ 3.500.000

Local: R. Sampaio Viana, 180

Data: Março e abril de 2015

2.  ‘Social’ 

Valor: R$ 2.380.000

Local: Av. B. Faria Lima, 3.989

Data: Fevereiro e março de 2015

‘3. Sócio 1’

Valor: R$ 2.000.000

Local: Av. B. Faria Lima, 1.931

Data: Fev., março e abril de 2014

4. ‘Fraco’

Valor: R$1.000.000

Local: R. L. Paulistanos, 670

Data: Julho de 2014

5. ‘Babaçu’

Valor: R$ 670.000

Local: R. Jesuíno Arruda, 806

Data:  Outubro de 2014

6. ‘Bandeira’

Valor: R$ 600.000

Local: R. da Quitanda, 937

Data: Outubro de 2014

7. ‘Papai Noel’

Valor: R$ 500.000

Local: R. Ouro Branco, 150

Data: Fevereiro de 2014

8. ‘Crente’

Valor: R$ 500.000

Local: Av. Paulista, 2.355

Data:  Outubro de 2014

9. ‘Parreira’

Valor: R$ 466.000

Local: R. Iguatemi, 150

Data: Setembro de 2014

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