'Defendo uma constituinte exclusiva para reformas', diz Marina

Pré-candidata do PV à Presidência da República concede entrevista antes de anunciar sua concorrência ao cargo

Flávia Tavares, de O Estado de S.Paulo

15 Maio 2010 | 18h07

SÃO PAULO - Marina Silva chegou atrasada ao escritório que será seu comitê em São Paulo, no bairro de Pinheiros. Os muros externos estão pintados de verde, a decoração é leve, está quase tudo pronto. Ela se atrasou porque estava reunida com assessores e correligionários para definir os últimos detalhes de seu discurso neste domingo, no lançamento de sua pré-candidatura.

 

Em uma hora de conversa, a senadora começou a delinear posições sobre política econômica e externa e sobre como tocará as reformas política, tributária e previdenciária, se eleita: "Defendo a criação de uma Constituinte exclusiva, para fazer as reformas e nos tirar dessa paralisia." Falou sobre alianças políticas, sempre defendendo a comunhão de ideias acima de acordos que perpetuem o fisiologismo. Por fim, defendeu o Estado laico veementemente, enquanto reafirmava sua fé.

 

A postura de não se aliar a políticos e partidos com os quais a senhora discorda a inviabiliza politicamente?

 

Sempre fui de dialogar com todos os segmentos. Tenho interação com lideranças de todos os partidos. A diferença é a qualidade dessa interação. Vou na direção de pessoas com quem tenho uma comunidade de pensamento. A ligação se estabelece não simplesmente pelo vínculo partidário, mas pelo vínculo com a causa e os princípios. Mas não se trata da interação pragmática com aqueles que se sentem donos do poder.

 

Que interlocução a senhora busca?

 

Uma interlocução que aponte para uma nova visão de como resolver os problemas do Brasil. Isso quer dizer não negar contribuições ao longo dos anos. Por isso, identifico conquistas no governo do presidente FHC, com o Plano Real, aperfeiçoadas pelo presidente Lula. Mas sei que não chegamos ao fim da história. Tivemos vitórias, mas temos imensos desafios pela frente.

 

Quais os principais desafios?

 

Se pensarmos que temos no Brasil 18% de jovens analfabetos e que 7 milhões deles estão no Nordeste e que 55% das crianças do ensino fundamental não concluem a 8.ª série, esses são grandes desafios. Se considerarmos que o Brasil é uma potência ambiental e que podemos fazer a diferença para quebrar paradigmas e construir novas bases para nos desenvolver econômica e socialmente, também.

 

Se eleita, a senhora não vai precisar do apoio dos partidos com os quais não quer se aliar agora?

 

Qualquer mudança profunda é fruto de acordo social. Se não tiver um que legitime as transformações, não tem como tocá-las. Se ganhar, quero sair da eleição com legitimidade e respaldo para implantar as mudanças a partir de princípios e não do fisiologismo que transformou em reféns aqueles que ganharam o poder cheios de boas intenções.

 

Quem a senhora apoiará se não for para o segundo turno?

 

Segundo turno se discute no segundo turno. Irei conversar com aquele que não for para o segundo turno comigo. Aprendi a afirmar o que penso e como opero nos meus 30 anos de PT. As pessoas diziam sobre o PT o que hoje dizem de mim. Quando saímos do PMDB para criar o PT, diziam que estávamos fazendo o jogo da ditadura, do Golbery do Couto e Silva. E nada se revelou mais falso. Agora, não estou fazendo o jogo do Serra, nem da Dilma, nem de ninguém. Faço a defesa de um projeto político para o Brasil, já que os partidos, inclusive o PT, não foram capazes de atualizar seu pensamento.

 

Que atualizações eram necessárias?

 

Os partidos de esquerda na ditadura não se atualizaram no pensar da reconquista da democracia fora da ideia verticalizada de partido comunista. O PT fez essa atualização. Mas não se atualizou na questão da sustentabilidade.

 

Quais serão suas diretrizes com relação à política econômica?

 

Não temos aventuras a fazer. Pelo contrário, temos dito que é fundamental manter o tripé usado desde que se conseguiu a estabilidade econômica: o controle da inflação, as reservas e o câmbio flutuante, além da autonomia do Banco Central.

 

Como a senhora avalia a política externa do presidente Lula?

 

Temos avanços a ser preservados. O olhar que o Brasil teve para regiões do mundo sem pensar em interesse comercial, a partir de uma visão solidária, com a África, por exemplo, é positivo. Por outro lado, existem princípios que devem ser estabelecidos. A defesa dos direitos humanos não pode ser relativizada. O caso de Cuba é claro. Reconhecemos que, antes da revolução, havia a ditadura de Fulgencio Batista, que aviltava os direitos humanos. Do ponto de vista das conquistas sociais, a revolução foi importante. Mas, se é bom para o Brasil ter democracia e liberdades políticas e de expressão, deve ser bom também para os cubanos.

 

E a visita do presidente Lula ao Irã?

 

O Brasil tem uma cultura e uma tradição de paz que nos credencia para dar exemplo. Portanto, não pode dar mensagem errada na relação com o Irã, já que não há segurança quanto à bomba atômica. O diálogo é importante, é bom ter um país ocidental dialogando com eles. Mas não se podem dar sinalizações incorretas, dar credibilidade a quem está prendendo, executando e aviltando as liberdades políticas e, ainda, com risco de armamento nuclear.

 

A sra. pretende fazer as reformas política, tributária e previdenciária?

 

Essas reformas têm feito parte de um consenso oco, em que todos falam e ninguém leva a cabo o que falou durante as eleições. Essas reformas estratégicas para o País deveriam fazer parte de um processo de Constituinte exclusivo, que nos ajudasse a sair dessa paralisia.

 

A senhora defende o ensino do criacionismo em escolas públicas?

 

Isso é uma inverdade. O que defendi na entrevista que gerou essa polêmica foi o ensino do evolucionismo dentro de escolas confessionais. Não entendo como transformaram isso em defesa do criacionismo.

 

Mas acredita no criacionismo?

 

Não tenho formulação sobre isso. Creio em Deus como 95% dos brasileiros e acredito que Deus criou todas as coisas. Não preciso de teoria científica para justificar isso e não coloco nenhuma teoria científica para contrapor a ciência em relação a isso. Não acho que se deva fazer contraposição entre fé e ciência.

 

Como lidar com o rótulo de conservadora que algumas posições em temas polêmicos lhe rendem?

 

Vou lidar sendo coerente e transparente. Primeiro, quero que não fique nenhuma dúvida da minha defesa do Estado laico. É uma conquista da sociedade brasileira e é graças ao Estado laico que eu posso ser cristã-evangélica, que outros podem ser católicos, espíritas, ateus, judeus ou muçulmanos. Em relação aos princípios de fé, eu defendo a vida.

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