Declarações de Bustani irritam Lafer

O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Lafer, irritou-se nesta quinta-feira com recentes declarações do embaixador José Maurício Bustani, diretor-geral da Organização para a Proscrição de Armas Químicas (Opaq), de que o Itamaraty não se mostra atuante na defesa de sua permanência nesse posto.No próximo dia 21, os 145 países-membros da Opaq vão reunir-se em Haia, Holanda, para avaliar a moção de demissão de Bustani apresentada pelos Estados Unidos. Para fontes do Itamaraty, o embaixador corre o risco de que sua situação piore devido aos desencontros com o governo brasileiro.Na manhã desta quinta, Lafer aproveitou uma reunião com os chanceleres dos demais países do Mercosul e da Comunidade Andina em São José, Costa Rica, para pedir o apoio à manutenção de Bustani no cargo. Acabava de deixar o encontro quando soube de novas críticas do embaixador ao Itamaraty.Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o diretor-geral da Opaq criticou a suposta relutância das autoridades brasileiras em defendê-lo e levantou a suspeita de que o Itamaraty não havia orientado os embaixadores no exterior a interferir em seu favor junto aos governos dos países em que atuam.Bustani disse que confia em seus colegas em altos postos do Itamaraty, mas não "nas fontes mais para cima", em referência ao próprio chanceler brasileiro. "Assim não dá. É difícil ajudar quem não quer ser ajudado", reagiu o chanceler, em conversa com assessores. "Em momentos como esse, é preciso manter a cabeça fria e os pés, no chão. Se ele atuar dessa forma emocional, vai solapar os esforços que temos feito", completou.Lafer irritou-se também com o que considera falta de sensibilidade de Bustani para perceber que o País não quer transformar sua possível demissão em um conflito direto com os EUA. Conforme explicou um assessor do chanceler, a retirada de Bustani da direção-geral da Opaq pode ser importante para os Estados Unidos, mas sua permanência não é estratégica para o País.Para o Brasil, mais relevante seria o fortalecimento das instituições multilaterais, entre elas a Opaq, estejam ou não conduzidas por brasileiros. Essa convicção levou o Palácio do Planalto e o Itamaraty a darem a causa como perdida logo que os Estados Unidos informaram seu desejo de afastar Bustani, em janeiro.Na avaliação da mesma fonte, o embaixador envolveu o País em uma espécie de disputa pessoal com o governo norte-americano. Isso acabou repercutindo em diferentes escalões e vem até servindo de munição para os candidatos de oposição nas próximas eleições.Apesar de considerar a causa perdida, o Itamaraty rejeita as críticas de que não se movimentou em favor de Bustani. Desde janeiro, a embaixada do Brasil em Washington fez várias gestões no Departamento de Estado, todas sem resultado favorável.A última delas, resultado do pedido pessoal de Bustani ao presidente Fernando Henrique Cardoso, ocorreu na última sexta-feira, conforme informou o assessor de Lafer. O ministério também teria encaminhado circulares a todos os embaixadores brasileiros no exterior com a orientação de pedir o apoio dos governos locais.

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