Declaração de FHC foi um recado para Bush, dizem diplomatas

A declaração do presidente Fernando Henrique Cardoso de que o governo americano "não sabe nada" de América Latina, feita no intervalo de uma entrevista a uma emissora de TV mexicana, que foi ao ar na última quinta-feira, reflete o pensamento da diplomacia brasileira e segue a linha de discursos e comentários já feitos pelo presidente nos últimos meses. Mais do que um descuido de Fernando Henrique, a declaração pode ter sido um recado ao presidente George W. Bush, acreditam diplomatas brasileiros. "O presidente não precisava ter falado no intervalo; foi um cuidado desnecessário, porque essa é sua posição recorrente", disse um embaixador próximo a FHC. "Recados, às vezes, são dados assim, como se fosse um descuido", completou outro diplomata brasileiro.É a dificuldade no relacionamento com os Estados Unidos, acrescentam os diplomatas, que leva o Brasil a priorizar a política de união da Amércia Latina com vistas ao fortalecimento dos laços do continente com a Europa. A entrevista de Fernando Henrique foi concedida em Brasília à emissora Televisa 2, que acabou veiculando com destaque comentários feitos pelo presidente brasileiro durante o intervalo da gravação. Ontem, o Palácio do Planalto avisou que o presidente nada falaria sobre o assunto. Não faria reparos, nem confirmaria suas declarações.A embaixada dos EUA também não se manifestou. A assessoria de imprensa da embaixadora Donna Hrinak informou que ela não comentaria o teor da entrevista, mas lembrou que o presidente Bush chegou à Casa Branca disposto a fortalecer as relações com a América Latina. Reconheu, no entanto, que esta política foi parcialmente prejudicada depois dos atentados de 11 de setembro.Ao apontar o atual despreparo da Casa Branca para lidar com questões relativas à América Latina, Fernando Henrique lembrou que a administração do ex-presidente Bill Clinton tinha mais contatos na região. E, na entrevista propriamente dita, afirmou que a política externa americana reserva um lugar irrelevante ao Brasil e demais países latino-americanos desde os atentados terroristas de 11 de setembro.Esse mesmo discurso, o presidente exibiu em entrevista recente à revista alemã Der Spiegel, quando disse que o governo americano vive um "aprendizado" em relação ao continente latino-americano.Diplomatas brasileiros lembram os últimos atropelos do governo George Bush em relação ao Brasil: o subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental, Otto Reich, ignorou o Brasil em seu primeiro discurso no cargo. Ele fará visita oficial ao Brasil agora em julho. Na semana passada, o secretário de Tesouro, Paul O?Neill, disse que o FMI não poderia colocar dinheiro do contribuinte dos EUA na "incerteza política do Brasil". Foi mais um atrito na relação entre os dois países.Nos últimos tempos, segundo os diplomatas brasileiros, o único gesto positivo do governo americano foi a nomeação de Donna Hrinak para assumir a embaixada no Brasil. "É o que ajuda um pouco a diminuir as tensões", disse um embaixador.

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