Declaração da ministra causa desconforto no governo

Causou desconforto no governo a divulgação de uma declaração da ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), segundo a qual é natural a discriminação de negros contra brancos. Em entrevista à BBC Brasil para lembrar os 200 anos da proibição do comércio de escravos pela Inglaterra, ela afirmou que "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco". E explicou: "Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou."A reação foi imediata e veio de militantes negros e de integrantes de movimentos sociais. "Como negro, não alcanço o sentido de tão estranha declaração", criticou Percílio de Sousa Lima Neto, vice-presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, órgão do Ministério da Justiça. Ele disse que, por princípio, condena qualquer tipo de discriminação ou preconceito, seja de negros ou brancos, mas avaliou que precisaria conhecer o contexto da entrevista "para emitir melhor juízo".Constrangimento O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, afirmou que há uma boa distância entre entender os processos que levam à discriminação e aceitar o preconceito. "Compreender o sistema perverso da escravidão e do preconceito decorrente dela é importante, para que o Brasil tenha de fato uma democracia racial", avaliou. "Mas aceitar qualquer tipo de preconceito não pode ser medida eficaz no que se refere à democracia racial." Britto declarou esperar que, em sua gestão, "a ministra não tenha aplicado o conceito da compreensão como aceitação".Alguns membros do governo envolvidos no combate ao preconceito racial ficaram constrangidos. O secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, evitou comentar o assunto com a imprensa, ao sair da reunião do Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, alegando que desconhecia o contexto da entrevista.O representante da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no encontro, Marcelo Tognozzi, disse ter ficado perplexo com a entrevista: "Não tem sentido. Acirrar conflitos nunca é bom. Todos nós que somos não racistas não podemos concordar com tal afirmação." Ele se referiu, em particular, ao trecho da entrevista, destacado no título pela BBC, em que a ministra diz que "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco".Resposta da ministraDiante da reação negativa, Matilde divulgou uma nota, por meio da assessoria, alegando que trechos da entrevista foram tirados de contexto, causando visão distorcida das suas declarações e "induzindo o leitor a equívoco". Ela lembrou que, no decorrer da entrevista, deixa claro que não está incitando condutas racistas. "A afirmação apenas reconhece a histórica situação de exclusão social de determinados grupos étnicos no Brasil, prevalecente após 120 anos da abolição, que pode, por vezes, provocar esse tipo de atitude - também condenável", ressaltou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.