Decisões de Chávez estampam fracasso da política brasileira

As decisões tomadas nesta semana pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, estampam o fracasso da tática utilizada pelo governo brasileiro para lidar com atitudes e declarações histriônicas do líder venezuelano e também o acúmulo de erros estratégicos cometidos por Brasília. Para diplomatas ouvidos pelo Estado, o pior dos equívocos foi seu total apoio à apressada adesão do país vizinho ao Mercosul na condição de membro pleno, sob a ilusão de que esse compromisso ampliaria a capacidade de o Brasil limitar os arroubos de Chávez. Outra falha foi sua omissão, diante das ações sucessivas de Caracas, sob o pretexto do princípio brasileiro da não-intervenção em assuntos internos de outras nações.Experientes diplomatas afirmaram ao Estado que a receita de paciência alargada e de toureio permanente de Chávez adotada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva mostrou-se ineficiente para impedir a gradual concentração de poder pelo Palácio de Miraflores, o esfacelamento de princípios democráticos e a conversão da economia do país para um modelo autocrático. Essa política, agora, coloca em risco a identidade do próprio Mercosul e não terá como impedir os arroubos de Chávez de expandir seu "Socialismo do Século XXI" a outros rincões da América do Sul e ao próprio projeto de integração do continente.MercosulPara esses diplomatas, a reunião de Cúpula do Mercosul, agendada para os próximos dias 18 e 19 no Rio de Janeiro, inevitavelmente se transformará em palco para Chávez exibir seus planos revolucionários e defender um modelo mais social para o bloco. O mesmo deverá ocorrer nos encontros de cúpula que se seguirem. As "questões internas" da Venezuela, adverte o ex-chanceler Celso Lafer, tornaram-se "questões do Mercosul" e tendem a esfacelar a identidade, a eficiência e o poder de atração do bloco."As recentes iniciativas de Chávez terão impacto grave no Mercosul. Por isso, não se tratam de temas de ordem interna, mas de questões do Mercosul, bloco do qual o Brasil é um dos sócios fundadores e que hoje tem a Venezuela em seu bojo", afirmou Lafer. Para alguns diplomatas, o fato de não ser uma instituição sólida, que aplica critérios bem-definidos sobre as práticas democráticas, impede ao Mercosul qualquer iniciativa de "domesticar" os impulsos revolucionários de Chávez. "O governo brasileiro está encalacrado com esses desvarios do Chávez. O pior é que todo o Brasil e o Mercosul está na mesma situação", resumiu um experiente negociador.Nesta quinta-feira, os anúncios de Chávez da mudança do nome oficial da Venezuela - de República Bolivariana para República Socialista -, do fim dos municípios como unidades federativas e da efetiva nacionalização do setor de energia elétrica e da CA Teléfonos de Venezuela (CANTV) somente elevaram os dissabores e os risos nervosos no Itamaraty. Em especial, porque há certeza nos quadros da diplomacia de que o governo brasileiro não mudará sua forma de agir.Pouco antes da vitória de Chávez nas eleições de 3 de dezembro de 2006, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, explicou a assessores que "o Brasil não é os Estados Unidos" e que, portanto, jamais "apontaria o dedo a Chávez para dizer que está errado". Para Amorim, não há outra alternativa. Qualquer atitude de Brasília poderia ser observada como uma ingerência em assuntos internos e elevar a temperatura das reações de Caracas contra o Brasil.

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