'Decisão sobre caças será sempre política', diz Celso Amorim

Lula manifestou preferência pelo Rafale e tem dito que compra é para consolidar parceria com a França

Jamil Chade, da Agência Estado,

06 Janeiro 2010 | 12h46

O chanceler Celso Amorim afirmou nesta quarta-feira, 6, em Genebra, que a decisão sobre os caças que serão comprados pelo governo brasileiro "será sempre política". Segundo Amorim, a escolha sobre o caça vencedor da licitação será do presidente Lula, que pretende ignorar relatório do Comando da Aeronáutica que avaliou o caça Gripen NG, da empresa sueca Saab, como o melhor para a renovação da frota da Força Aérea Brasileira (FAB), informou um de seus mais próximos auxiliares. Lula já manifestou a preferência pelo caça francês Rafale e tem repetido que a decisão sobre a compra dos 36 aviões é "política e estratégica" para consolidar a parceria entre o Brasil e a França.

 

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O chanceler foi diplomático ao avaliar o documento do Comando da Aeronáutica. "Claro que vamos estudar e levar em conta o que está no relatório. Mas não sou eu quem decide. A decisão é do Ministro da Defesa e do presidente. De qualquer forma, a decisão será tomada nessa instância. É o presidente, com a ajuda de seu Conselho de Defesa, quem tomará a decisão final. Não será uma decisão exclusivamente militar", completou Amorim, que esteve em Genebra para reuniões com o governo da Autoridade Palestina.

 

Amorim pediu ainda que os jornalistas não insistissem no assunto. Mas dificilmente escapará de perguntas da imprensa francesa ao participar de um evento público em Paris nesta quarta-feira. O Itamaraty ainda não tinha até a tarde desta quarta-feira uma confirmação se Amorim vai se encontrar com Sarkozy nesta quinta-feira, 7.

 

"Não sei. Fui convidado para comparacer a uma conferência. Haverá muita gente, e parece que Sarkozy vai abrir a conferência", explicou o chanceler. Ele esclareceu que não seria parte de suas "expectativas" um encontro com o francês. "Mas se ele me convidar, muito bem. Mas não sei", disse.

 

Vazamento 

 

O vazamento do relatório do Comando da Aeronáutica para o jornal Folha de S. Paulo - com a avaliação ainda parcial das propostas para o projeto FX-2, de renovação da frota da FAB - irritou Lula e provocou mal-estar no governo. Auxiliares do presidente disseram que o documento já foi modificado e não faz um ranking das melhores propostas, apenas avalia tecnicamente itens como transferência de tecnologia e aspectos comerciais e logísticos. Nota do Comando da Aeronáutica informou na terça-feira, 5, que o relatório ainda não foi enviado ao Ministério da Defesa.

 

O ministro da Defesa francês, Hervé Morin, minimizou a importância das informações segundo as quais os militares brasileiros preferem o caça sueco Gripen ao francês Rafale, e disse que sua oferta inclui transferência tecnológica ao Brasil, que teria, assim, "uma plataforma industrial" para a América Latina. Depois que a Força Aérea Brasileira (FAB) desmentiu ter entregue esse relatório técnico sobre a licitação para adquirir 36 caças, o ministro estimou que, neste assunto, "a imprensa brasileira não tem necessariamente a verdade".

 

Perguntado sobre o preço do Rafale, que é considerado muito alto a respeito de seus concorrentes, Morin respondeu com uma interrogação retórica: "é possível comparar uma Ferrari, que é o Rafale, com um Volvo, que é o Gripen?". "O Rafale é um avião de missões múltiplas", que já é uma realidade provada e utiliza "as tecnologias mais modernas", disse o ministro francês.

 

Preferência da Aeronáutica

 

A simpatia de setores da Aeronáutica pelo caça sueco já é velha conhecida do governo. Lula não queria, no entanto, que isso viesse a público. Afinal, dera o sim à compra dos Rafale antes mesmo de conhecer o relatório da Aeronáutica. Desde que anunciou sua preferência pelo caça francês, durante visita do presidente Nicolas Sarkozy ao Brasil, em setembro, Lula aguarda que a empresa Dassault reduza em 40% os custos de operação do Rafale. Naquela ocasião, Sarkozy chegou a garantir ao colega brasileiro que melhoraria substancialmente a proposta.

 

Três empresas competem para fornecer os 36 caças: além da Dassault e da Saab, a americana Boeing está no páreo com o F-18 Super Hornet. No relatório preliminar, o sueco Gripen NG ficou em primeiro lugar na avaliação técnica, seguido pelo Super Hornet. O Rafale, preferido por Lula e Jobim, obteve o terceiro e último lugar, pelo preço considerado extremamente alto.

 

Um dos argumentos usados pelos defensores do caça francês é de que não se pode comparar preços entre equipamentos diferentes. Alegam, por exemplo, que o sueco Gripen é monomotor e está em fase de projeto. 

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