Decisão final é política, diz analista

Para ele, País ainda está construindo modelo para setor

Guilherme Scarance, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2009 | 00h00

Para Salvador Ghelfi Raza, especialista em planejamento estratégico e de segurança, a compra de um caça, no final do processo, é sempre uma escolha política. "Durante a discussão tem quatro grandes conjuntos de variáveis em equilíbrio: táticas e técnicas, com as operacionais e estratégicas. Este conjunto define uma recomendação para que seja feita uma decisão política. A decisão é sempre política", afirmou.

Raza destaca vários fatores políticos que pesam na decisão. Em primeiro lugar, ele cita a importância regional de uma maior capacidade de vigilância das fronteiras. Mas também pesam, segundo o especialista, "valores, preferências, acordos e até mesmo vaidade".

Quanto aos critérios técnicos, Raza destaca o ciclo de vida do avião, o custo de manutenção e as especificidades, entre outros pontos. "Se você tiver uma aeronave com alto desempenho tático, não precisa de duas", destacou.

Para ele, a discussão no Brasil está madura, mas tem falhas. "A discussão técnica está nas Forças Armadas, a operacional está no Ministério da Defesa e só a discussão política está um pouco diluída. Essa talvez seja uma das dificuldades", destaca.

"Em outros países o modelo é mais concentrado. No Brasil estamos construindo ainda um modelo, construindo o avião enquanto ele voa. Entramos em um negócio muito grande, muito complexo e construindo as regras enquanto o jogo é jogado."

Ele lembra que grandes compras de armamentos, de modo geral, no mundo, precisam do aval do Congresso. "Quem tem Orçamento na mão é o Congresso. Esse é um frágil equilíbrio de país a país", destaca.

Nos EUA, acrescenta, o presidente muitas vezes quer determinado armamento, influenciado pelos militares, mas o Congresso barra os recursos. "Foi o que aconteceu recentemente, quando cortaram os F-22 da Força Aérea. A gestão no Congresso, então, é tão importante quanto a opção que será feita."

LOBBY

Para o especialista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não encerrou ainda a disputa. "A manifestação do presidente, seguida da nota do Ministério da Defesa, está sendo interpretada como uma intenção de negociar, não como uma decisão de compra, até para evitar problemas jurídicos, responsabilidades internacionais."

Raza destaca que haverá forte lobby até a assinatura do contrato. "Tem pressão e continua existindo. É natural, estamos falando de muito, muito dinheiro. Esse contrato, no total, deve ser uma das maiores aquisições de armamentos do mundo."

O analista destaca que o lobby é feito pelos melhores profissionais do ramo. "Há companhias contratadas para isso. Constroem toda uma estrutura para influenciar a decisão."

REPERCUSSÃO INTERNACIONAL

Le Monde

O jornal traz uma entrevista do presidente da Dassault, Charles Edelstenne, na qual ele afirma que o acordo é resultado de uma ação política, liderada pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy. "Foi Nicolas Sarkozy que vendeu o Rafale, não fomos nós", disse. O jornal deu espaço às declarações do ministro da Defesa, Nelson Jobim, de que o processo de seleção para o fornecimento dos caças ainda não foi concluído. Mas destacou que Lula deixou clara a escolha no encontro com Sarkozy.

Le Figaro

Controlado pela Dassault, o jornal francês diz que a viagem de Sarkozy ao Brasil não foi em vão. Permitiu que o presidente francês retornasse a Paris "com o primeiro contrato de venda do Rafale". Classificou a empreitada como um "sucesso político, diplomático e industrial". Ao relembrar outros contratos de defesa firmados no passado entre Brasil e França, o jornal afirma que os novos acordos "concretizam a parceria estratégica estabelecida entre os dois países desde 2006".

La Tribune

Em editorial, o jornal econômico descreve a negociação em torno dos caças Rafale como uma "história bem francesa", de denegrir a imagem de um produto nacional até o ponto em que ele deixa de ter sucesso em um primeiro momento. No texto, o jornal admite que os sucessivos fracassos do Rafale em negociações comerciais no exterior não jogaram a favor da Dassault. Mas destaca que o favoritismo nas negociações com o Brasil serve para virar o jogo a favor do caça francês.

Liberation

O jornal trouxe na edição de ontem uma entrevista com o diretor geral da Dassault Aviation para a área internacional, Eric Trappier. O executivo diz esperar que o contrato de venda do Rafale resulte na geração de 3 mil postos de trabalho no Brasil e outros 6 mil em solo francês. "Se a França não tivesse levado esse contrato, seriam criados empregos no Brasil pelos nossos concorrentes, mas nenhum deles na França. Sem contrato, igual a zero de emprego", completou o executivo.

L´Express

O site da revista diz que falta um "pequeno esforço" para finalizar a negociação que vai viabilizar as primeiras exportações do Rafale. "O que foi anunciado na segunda-feira dia 7 de setembro, no Brasil, pelos presidentes Nicolas Sarkozy e Luiz Inácio Lula da Silva, na presença de Charles Edelstenne, presidente da Dassault Aviation, e Serge Dassault, é a abertura das negociações."Mas destaca que "uma coisa é certa: os concorrentes, o americano Boeing e o sueco Gripen não estão mais no páreo"

Le Point.fr

De acordo com o site da revista francesa, a escolha de Lula pelo Rafale "causou confusão no Brasil, levando militares a declararem que a concorrência ainda está aberta". Lembrando que os franceses já "estouravam as champanhes", a revista replicou a fala do ministro Nelson Jobim sobre o assunto. Também traz o lado da Embaixada dos EUA no Brasil, que disse ainda não haver "uma decisão final" sobre a compra dos 36 caças e afirmou que os americanos ainda estão no páreo.

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